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Por Rodrigo Juste Duarte
O suicídio sempre foi um tabu em diversas culturas, na vida social e na imprensa. Jornalistas de redações tradicionais conheciam um código informal: o tema não podia ocupar as páginas dos noticiários, para evitar influenciar outras pessoas a seguirem o mesmo caminho. Quando uma figura pública cometia o ato, evitava-se o termo direto, optando por eufemismos como “foi encontrado morto em seu apartamento” ou “a polícia o localizou enforcado em casa”. Exceções marcantes romperam essa barreira, como o suicídio de Getúlio Vargas, presidente da República, naquele agosto de 1954, quando jornais estamparam o termo em letras garrafais após ele disparar contra si mesmo no Palácio do Catete, em meio a uma crise política.
Desde 2014, o assunto ganhou mais espaço com o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção ao suicídio, criada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). A escolha do mês remete ao Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, em 10 de setembro, endossado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda assim, tratar o suicídio como assunto de um único mês é insuficiente: ele pode ocorrer a qualquer instante, muitas vezes sem sinais visíveis para amigos ou familiares. Especialistas em psicologia enfatizam que se trata de um fenômeno multifatorial, não reduzido a um só gatilho, como dificuldades financeiras ou violência.
“O suicídio precisa deixar de ser tabu. Trazer essa discussão à tona com responsabilidade pode salvar vidas”, alertou a psiquiatra Alexandrina Meleiro, em reportagem de André Bernardo no Estadão (14/12/2023). Responsabilidade significa evitar que a cobertura estimule em vez de prevenir.
A OMS lançou, em 2000, o manual “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia”, com orientações claras: não divulgar métodos usados, cartas de despedida, fotos do local ou julgamentos morais simplistas sobre motivações. Infelizmente, nem toda imprensa segue essas regras. O caso de Robin Williams, ator carismático que se suicidou em 2014, ilustra o risco: a cobertura sensacionalista foi ligada a um aumento de 10% nos suicídios nos EUA nos meses seguintes, conforme estudo no British Medical Journal.
No Brasil, o Projeto de Lei 1970/23 e ainda em tramitação na Câmara dos Deputados, busca regular isso, alterando a Lei 13.819/19 (Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio). A proposta exige que veículos informem o CVV (Ligue 188), usem dados de fontes oficiais, descrevam sequelas de tentativas não fatais e evitem sensacionalismo. Essas diretrizes foram aplicadas na cobertura do suicídio do vlogger PC Siqueira, em dezembro de 2023 e este ano a investigação foi reaberta pelo ministério público.
Na ficção, o perigo é a romantização, ainda mais perigosa. A série “13 Reasons Why”, da Netflix, em 2017, listou motivos para o suicídio da protagonista em cada episódio, associada a um aumento de 28,9% nos casos nos EUA logo após a estreia.
“Não se deve romantizar o suicídio, como se fosse ato de heroísmo ou coragem”, adverte Alexandrina Meleiro. “Quanto mais o público se identifica com quem morreu, maior o risco de contágio”, complementa o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, em entrevista à UFJF.
Não é fenômeno novo: no século XVIII, o livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe (1774), inspirou suicídios por imitação na Europa, gerando o termo “Efeito Werther”. Por outro lado, Mozart, em “A Flauta Mágica” (1791), retratou Papageno cogitando o suicídio por amor, mas optando pela vida, originando o positivo “Efeito Papageno” consequente daquela ópera.
Esses riscos, sejam alegoricamente alusivos à literatura ou à ópera, ganham contornos reais em relatos pessoais impactantes. Justamente o produtor de ópera e radioamador Gehad Ismail Hajar atuou no socorro durante as enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul de 2024 – as piores da história gaúcha.
Operou crucialmente como nó de retransmissão entre estações em áreas calamitosas, transmitindo radiogramas de emergência às equipes locais de busca aérea e marítima, e apoiando resgates em meio ao colapso das comunicações. Porém, apenas no ano anterior àquelas enchentes, ele presenciou mais proximamente três situações de morte iminente, destacando como crises extremas que expõem fragilidades humanas.
Em março de 2023, época que empresariava a cantora Karol Conká e estavam no Rio de Janeiro para gravação de um clipe, Gehad salvou uma moça quase inconsciente engasgada com um pedaço de pão no restaurante Carmelo da rua Correia Dutra, no Flamengo. Aplicou a manobra de Heimlich com sucesso. Semanas após, um incêndio em seu condomínio em Curitiba demandou ação imediata. Coordenou o plano de contingência, desligou gás encanado e elevadores, organizou a evacuação, acionou os bombeiros e, ao lado da vizinha Eliane Berger, arrombou a porta do apartamento em chamas para resgatar um jovem inconsciente.
Os bombeiros chegaram desnecessários, pois o fogo fora controlado. Mas o choque veio ao descobrir que o incêndio era proposital: uma tentativa de suicídio.
Ainda naquele ano, uma jovem pendia do 14º andar do mesmo prédio, após briga com o noivo, decidida a se jogar. Gehad delicadamente conversou com ela, ofereceu acolhimento emocional e a convenceu a voltar para dentro, buscando ajuda médica. “Efeito Papageno” na vida real, sob olhares incrédulos de transeuntes, numa ópera sem ensaios irrompendo ciclos de tragédia.
Impulsos suicidas provam-se temporários, multifatoriais e reversíveis com empatia rápida. Essas passagens reais ilustram que impulsos suicidas são frequentemente temporários e multifatoriais, mas interrompíveis com atenção, empatia e intervenção rápida.
O suicídio é delicado demais para ser ocultado, mas exige tratamento ético e responsável. “Precisamos conscientizar que suicídio não é saída nem solução. É sofrimento e desespero. Há alternativas”, diz a psicóloga Karen Scavasini, no Estadão.
Ideal é destacar caminhos de ajuda, como o CVV (188), e narrativas de superação. Nadja Araújo, coordenadora de Comunicação da Secretaria de Saúde de Sergipe, sugere abordar o impacto nos familiares: “Por mais que alguém queira morrer, geralmente não deseja fazer sofrer quem ama”.
O Conselho Federal de Psicologia reforça: priorize o educativo e sensível, nas mídias tradicionais ou redes sociais, para conscientizar sem prejudicar. Debater o suicídio salva vidas – mas só se feito com ética acima de tudo.