Quando a Copa faz o que a diplomacia não consegue
30/06/2026 às 09:46
Foto de Gustavo Ferreira na Unsplash
João Alfredo Lopes Nyegray*
Heloisa Calixto**
A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história como a maior edição do torneio desde sua criação, em 1930. Pela primeira vez, 48 seleções disputam o campeonato, resultado da expansão promovida pela FIFA, que ampliou o número de participantes de 32 para 48 equipes. A mudança vai muito além de uma simples alteração no regulamento: ela amplia a representatividade de diferentes regiões do planeta e reforça o caráter verdadeiramente global do principal evento do futebol.
O novo formato exigiu uma reestruturação inédita. O número de partidas aumentou de 64 para 104, a competição passou a durar 39 dias e, pela primeira vez, é realizada simultaneamente em três países: Canadá, Estados Unidos e México. Ainda durante a fase de grupos, mais de quatro milhões de torcedores passaram pelos estádios, superando o recorde anterior de público em uma Copa do Mundo. Os números impressionam, mas talvez o aspecto mais interessante desta edição não esteja dentro das quatro linhas.
Ao reunir seleções dos seis continentes, a Copa também se consolida como um dos maiores encontros culturais do mundo. As arquibancadas deixam de ser apenas espaços de apoio às equipes e tornam-se vitrines das identidades nacionais. Vestimentas, músicas, danças, bandeiras e costumes transformam o futebol em uma celebração da diversidade cultural.
Os escoceses talvez sejam o exemplo mais marcante. Vestindo seus tradicionais kilts, estampas tartan e carregando gaitas de fole, caminham em direção aos estádios como se levassem consigo séculos de história. Não estão apenas torcendo por uma seleção; estão apresentando ao mundo uma parte da identidade escocesa.
Os noruegueses seguem outra tradição. Antes e durante os jogos, reproduzem o famoso movimento sincronizado de remada viking, uma referência direta ao legado histórico que ajudou a moldar a construção nacional do país. Em poucos segundos, um gesto esportivo torna-se também uma aula de história.
Entre danças, tambores e vestimentas coloridas, a torcida da República Democrática do Congo também chamou a atenção. Um de seus torcedores mais conhecidos decidiu representar Patrice Lumumba, herói da independência congolesa e símbolo da luta anticolonial africana. Em um ambiente normalmente associado apenas ao entretenimento, a arquibancada transformou-se em espaço de memória histórica e afirmação nacional.
Os mexicanos levaram aos estádios músicas, adornos e trajes típicos que transformaram cada partida em uma extensão de suas festas populares. Os dinamarqueses demonstraram seu tradicional espírito coletivo por meio de cantos sincronizados que ecoavam durante todo o jogo. Já os japoneses repetiram um gesto que há anos desperta admiração: recolher o próprio lixo ao final das partidas, refletindo valores profundamente enraizados em sua sociedade, como disciplina, respeito aos espaços públicos e responsabilidade coletiva.
Em um mundo marcado por guerras, rivalidades comerciais, sanções econômicas, disputas tecnológicas e crescente polarização política, talvez exista uma ironia difícil de ignorar. Enquanto governos reforçam fronteiras e desconfianças, milhões de pessoas atravessam continentes para celebrar justamente aquilo que as torna diferentes.
Durante algumas horas, escoceses, congoleses, mexicanos, japoneses, noruegueses e torcedores de dezenas de outras nacionalidades compartilham os mesmos metrôs, caminham pelas mesmas ruas, ocupam os mesmos bares e dividem as mesmas arquibancadas. Cantam em idiomas diferentes, carregam bandeiras distintas e defendem interesses esportivos opostos. Ainda assim, convivem.
Há quem veja a globalização como um processo de homogeneização cultural. A Copa mostra exatamente o contrário. Os torcedores não escondem suas identidades para participar de um evento global; fazem delas sua principal forma de participação. É justamente porque cada povo permanece sendo quem é que o espetáculo se torna tão rico.
Talvez exista aí uma lição que ultrapassa o futebol. A paz não depende de apagar diferenças nacionais, culturais ou históricas. Depende da capacidade de reconhecê-las, respeitá-las e permitir que convivam no mesmo espaço sem que precisem se transformar em conflito. Em tempos de geopolítica fragmentada, a Copa do Mundo lembra que a diversidade não é, necessariamente, uma ameaça. Pode ser, simplesmente, uma festa.
 
*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray
** Heloisa Calixto é estudante do curso de Negócios Internacionais e membro do Observatório Global da PUCPR.
 
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