Unindo os casais
29/06/2026 às 05:30
Foto de Amir Hosseini na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost

Estava saindo do cinema ali no shopping Novo Batel. Entrei num papo com o guardador de carros que trabalha na Alameda Presidente Taunay. Pelas tantas, ele me sai com esta: 

“quer saber, vou pedir pra Santo Antônio, vou escrever bem certinho assim com as palavras no capricho numa folha de papel: ´querido, padroeiro, faz favor aí de conceder a graça pro seu amigão aqui, de eu ter uma mulher bonita, carinhosa, que goste de romance e não fique perdida nesse mundo cheio de confusão, maldade, injustiça e a coisarada toda, e que ela cuide de mim e ó, pode deixar que eu cuido direitinho dela também, da minha amada, sem problema, sem fofoca, tudo no respeito do consentimento e na paz.`” 

Terminou de falar e deu três batidinhas no capô de um carro cinza, como se estivesse benzendo o motor.

“Será que tudo bem pro Santo Antônio atender um pedido como este?”

E ele: “claro, ué, ou você acha que o Santo também num gosta? Ele ia ficar unindo os casais pra que então?”

Ajeitando a gola da japona contra o vento frio, eu disse: “pede logo, porque junho tá acabando, e o Santo deve estar com uma pilha de memorandos desse tamanho na mesa.

“Não se preocupe, ele vai me atender, porque não sou igual a turma aí que pede pra se enrolar com mulher que pareça modelo de rede social, inatingível, com homem que tenha a conta cheia mais de enrosco com a lei do que dinheiro de verdade, nada disso, pra esses o Santo olha e pensa: ‘Ih, isso aí vai dar dor de cabeça e divórcio em três meses’. O meu não, o meu  pedido é sustentável, por isso ele vai furar a fila pra mim.”

“Sustentável?”

“Claro. Uma companheira pra cuidar e ser cuidada. No respeito. O Santo lê o pedido e respira aliviado: ‘finalmente um cliente que sabe o que quer da vida.’ Ele carimba o meu processo na hora e passa na frente dos outros, você vai ver.”

Fiquei pensando na burocracia celeste. Imaginei Santo Antônio lidando com planilhas complexas de compatibilidade amorosa, cercado por milhões de cartas. 

Devo ter feito uma cara de que não estava convencido de que ia ser fácil assim o Santo atender o pedido do guardador, mas ele sorriu largo para mim, revelando a sabedoria de alguém que passa as noites observando os encontros e desencontros nos estabelecimentos da região:

“Não tem erro, meu amigo, você vai ver, nesses casos sempre entra o test drive do destino. E a gente vai fazendo os ajustes na oficina do dia a dia. O importante pro Santo é a gente dar a partida no motor do amor.”
Comentários    Quero comentar
* Os comentários não refletem a opinião do Diário Indústria & Comércio