
Foto de Dameli Zhantas na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost
Há às vezes uma elegância melancólica, uma melancolia feliz, nas coisas que o tempo insiste em me reapresentar.
Nunca tive cavalos e revólver. Jamais conquistei a mocinha com piscadelas e laçadas que derrubassem bezerros pelas patas e pelos cornos. Faltava-me a têmpera dos heróis rústicos.
Funcionando feito um cacto, sempre engoli um deserto em cada esquina. Nunca tive grandes coisas, além de amigos que, andando juntos dividiam cigarros (eu era o único que não fumava), copos e a mesma fome de arte, de tempo de convívio e de alguma justiça em relação a determinados artistas cuja abra admirávamos — utopias baratas.
Meus roques nunca foram são rocks. Ainda hoje tenho poemas no estoque. Um dia a vida disse: “venha, se carioque.” E naquela cidade cheia de contradições, ingênuo, aventureiro, vivi um pouco a minha própria belle époque.
Acho que isso mostra um pouco que não fui de seguir modas (nem mesmo quando, por insegurança, tentei seguir uma ou outra, não fui capaz). Gosto demais das Old Ideas, de Leonard Cohen, com suas letras de arrependimento, redenção, fé, espiritualidade e (que remédio!?) mortalidade.
Há às vezes uma elegância melancólica, uma melancolia feliz, nas coisas que o tempo insiste em me reapresentar.
Foi nas frias madrugadas, nas sombras dos poemas mais iluminados que aprendi. Não sou alguém jurado de morte, sou jurado de poesia. Dou graças que o amor pelas palavras seja incurável.
O que o papel aceita o papel devolve. Nunca tive cavalos e revólver. Já ouvi falarem que a poesia é uma especie de vingança. Se isso é verdade, por ser delicada, é a única vingança que me interessa. Afinal, também eu na “Juventude ociosa / A tudo servil, / Por delicadeza / Perdi minha vida."