Brechas conhecidas
18/06/2026 às 10:30
Toda vez que chovia, a água percorria os mesmos lugares. Do telhado à calçada; da calçada, à caça de algum ponto mais baixo onde pudesse sumir. Deslizava com a segurança de quem conhece o terreno. Não hesitava. Não experimentava muito. Apenas seguia o que já estava desenhado.
Quando o vento resolvia se meter na história, surgiam desvios. A água se inclinava, procurava frestas nos rejuntes das lajotas, inventava atalhos mínimos. No começo era só um brilho diferente no chão. Depois, um filete fino. Com o passar das estações, aquele fio quase invisível ganhava convicção.
Eu conhecia alguns desses trajetos. O bocal da lâmpada da sala, quando a chuva vinha de lado. A fresta da porta, que, mesmo com o rodinho firme do lado de fora, encontrava um intervalo, um descuido, uma respiração na madeira.
No dia seguinte, tudo voltava ao normal. A água se deixava ver apenas no vaso sanitário e nas torneiras que comandamos: abrimos, fechamos. Domesticamos.
Na chuva seguinte, voltava a ter vida própria. Nunca vinha para desafiar. Vinha para confirmar.
Havia algo na sua repetição que me deixava inquieta. Não era força. Era permanência. A água não precisava vencer a casa; bastava visitá-la muitas vezes. O cimento, que parecia inabalável, começava a escurecer. A madeira, antes rígida, inchava. O metal, discreto, enferrujava em silêncio. Transformações miúdas, quase educadas.
Entre uma tempestade e outra, tudo parecia intacto. O chão seco, a porta firme, a lâmpada quieta. Quem chegasse de fora diria que nada acontecia ali. Mas eu sabia onde olhar. Sabia onde a tinta começava a descascar, onde o cheiro mudava primeiro. A água não se apressa. Ela aprende.
Há dias em que me pego esperando o ponto exato onde o primeiro pingo vai insistir. Como se já conhecesse o desfecho antes do início. Como se certas trajetórias fossem apenas questão de tempo.
Talvez toda construção carregue suas próprias brechas, invisíveis até que algo as percorra repetidas vezes. Talvez seja preciso muitas chuvas para que um caminho se revele inteiro.
Há marcas que não nascem do impacto, mas da constância. Quando a chuva engrossa e o vento empurra a água contra a porta, fico ali, escutando. Não é só o som do telhado. É o rumor de algo que retorna ao lugar onde um dia encontrou passagem.
E sempre encontra. Não porque seja mais forte. Mas porque sabe esperar.
 
17.03. 26 Bebel Ritzmann
 
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