
Foto de James Lee na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost
Vivemos sob o império da cabeça. Pensamos, logo existimos, é o que se diz. Glorificamos o cérebro, espécie de, digamos, CEO do organismo. O coração (o oficial, o do peito) consideramos que é o que carrega toda a poesia, sem contar as broncas do cardiologista.
Pois bem, não é que o cardiologista me veio agora com uma teoria interessante. Disse ele que as batatas da perna, funcionando juntas, são um “segundo coração” do corpo. Um segundo coração que não fica perto do pulmão e não sofre dos eflúvios do amor. Um segundo coração feito de duas bombas propulsoras contidas nas panturrilhas e que atende pelo nome estritamente burocrático de sóleo.
Oh sóleo mio! És o operário padrão do corpo humano. Enquanto o cérebro divaga, neurotiza, e o coração (do peito) se entrega a paixões, tu estás lá embaixo, no subsolo, trabalhando contra a gravidade, mandando o sangue de volta para cima. És um verdadeiro herói. O poeta Maiakovski provavelmente te levou em consideração quando escreveu: “comigo a anatomia enlouqueceu / sou todo coração.”
O ponto é que o segundo coração muda nossa relação com o ridículo. Meu médico disse que, para ativar tal usina de vitalidade, não é preciso correr maratona ou erguer ferro fundido em cima de ferro fundido. Basta submeter-se a uma prática relativamente discreta. Onde for, no momento que for, devemos ficar na ponta dos pés por trinta segundos, como quem tenta espiar por cima do muro do vizinho, repetindo isso várias vezes ao longo do dia. Aconselhou-me também a girar os pés enquanto estiver sentado nas intermináveis reuniões das quais participo, levantar o calcanhar do chão e girar os pés parecendo criança ansiosa para ir ao banheiro. Outra modalidade, já que falei em calcanhares, seria os fazer subir e descer quando estiver, por exemplo, na fila do banco, simulando uma dancinha. É diversão garantida, disse o doutor.
Isso me faz pensar que as panturrilhas são raizes a nos ligarem à terra ao mesmo tempo que funcionam como asas num voo interno. São os contrabaixos da música do nosso sistema circulatório.
Comecemos o dia pela base, pelo chão que nos sustenta. Lembremos que podemos melhorar um pouco do cansaço físico e mental ativando por trinta segundos a ponta dos pés, empurrando o corpo (mesmo que ele pese 140 quilos) para cima.
Dizem que o corpo fala. O meu acho que sim, pois enquanto minha mão escreve esta crônica, meus tornozelos estão lépidos e fagueiros giragirando embaixo da mesa de trabalho.