"Shadow AI': uso invisível de inteligência artificial avança nas empresas
Ferramentas de IA já são utilizadas por colaboradores para relatórios, análises e documentos internos antes mesmo da criação de políticas corporativas de segurança e governança
03/06/2026 às 18:00
Foto de Alexandre Conte.
A corrida corporativa pela inteligência artificial ganhou uma nova camada de preocupação entre executivos e especialistas em tecnologia: o avanço do chamado “Shadow AI”, termo utilizado para descrever o uso informal ou não supervisionado de ferramentas de IA dentro das empresas. Na prática, se trata da utilização dessas plataformas por colaboradores para elaborar relatórios, resumir contratos, interpretar planilhas, analisar indicadores e produzir apresentações, expondo dados sensíveis da empresa e sem que existam regras claras de governança, segurança ou compliance.

“O movimento cresce impulsionado pela facilidade de acesso às plataformas generativas e pela busca por produtividade no ambiente de trabalho. No entanto, é importante fazer um alerta que o uso desestruturado pode expor organizações a riscos relevantes, como compartilhamento indevido de dados sensíveis, vazamento de informações estratégicas, decisões baseadas em respostas imprecisas e ausência de rastreabilidade sobre conteúdos produzidos com apoio de IA", explica o CEO da Opus Tech e especialista em cibersegurança, Junior Machado. 

Em muitos casos, áreas de tecnologia sequer têm visibilidade sobre quais ferramentas estão sendo utilizadas pelos times, quais dados estão sendo inseridos nesses ambientes ou como os resultados estão sendo incorporados às rotinas de negócio. O cenário tem mobilizado departamentos de TI, jurídico, compliance e lideranças executivas em companhias de diferentes portes.

Para Junior Machado, o fenômeno mostra que a adoção da inteligência artificial está acontecendo mais rápido do que a preparação das empresas para lidar com ela. “A inteligência artificial já entrou no dia a dia corporativo, muitas vezes de forma silenciosa. O problema não é a tecnologia em si, mas o uso sem critérios. Quando dados internos são inseridos em plataformas abertas, a empresa pode expor ativos estratégicos sem perceber”, afirma.

Segundo ele, proibir o uso de IA tende a ser ineficaz. O caminho, avalia, passa por estruturar políticas claras e ambientes seguros para adoção responsável da tecnologia. “As empresas precisam tratar a IA como pauta estratégica de governança. Isso envolve definir regras de uso, classificar informações sensíveis, controlar acessos, treinar equipes e adotar soluções corporativas que garantam segurança e auditoria. Ou, até, adotar uma IA que seja usada de forma padrão no ambiente de trabalho e para uso apenas corporativo. Inovação e proteção precisam caminhar juntas”, diz Machado.

A tendência, segundo o especialista, é o crescimento de modelos privados de inteligência artificial, integrados à infraestrutura tecnológica das empresas e hospedados em ambientes controlados. Essa alternativa permite capturar ganhos de eficiência sem comprometer sigilo, conformidade regulatória e exigências previstas pela LGPD.

Para Machado, companhias que se anteciparem nesse debate terão vantagem competitiva nos próximos anos. “A pergunta já não é se a empresa vai usar inteligência artificial, porque isso já está acontecendo. A questão central agora é se ela está preparada para usar essa tecnologia com segurança, responsabilidade e visão de longo prazo”, conclui.
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