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Fotos: Ricardo Stuckert / PRpor Priscila Caneparo
Durante algum tempo, parecia improvável imaginar Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump dividindo uma mesa de negociações em clima amistoso. Os dois representam projetos políticos quase antagônicos, possuem visões distintas sobre meio ambiente, multilateralismo, democracia e governança global, além de terem transformado seus próprios países em espaços de intensa polarização política. Ainda assim, a diplomacia internacional costuma produzir aproximações que a política doméstica jamais permitiria. E foi exatamente isso que o encontro desta semana, em Washington, simbolizou.
A reunião entre Lula e Trump, realizada na Casa Branca e cercada por enorme expectativa internacional, foi mais do que um gesto protocolar. Ela representou uma tentativa concreta de reconstrução de pontes entre duas das maiores democracias do continente americano, após meses de tensões tarifárias, divergências ideológicas e desconfianças mútuas.
O encontro ocorreu em um momento particularmente delicado. De um lado, Trump mantém uma política externa fortemente orientada pelo nacionalismo econômico, pela lógica transacional e pela tentativa de reposicionar os Estados Unidos diante da crescente influência chinesa no mundo. De outro, Lula busca preservar a tradição brasileira de autonomia diplomática, defendendo o multilateralismo e tentando equilibrar as relações entre Washington, Pequim, União Europeia e Sul Global. A aproximação, portanto, não significa convergência ideológica. Significa, sobretudo, pragmatismo.
E talvez este seja o principal elemento político do encontro: ambos perceberam que o custo do distanciamento havia se tornado alto demais.
Para os Estados Unidos, o Brasil voltou a adquirir centralidade estratégica. Não apenas pelo tamanho de sua economia ou pela relevância regional, mas também porque o país se tornou peça importante na disputa global por minerais críticos e terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica, energética e militar do século XXI. Lula deixou isso claro ao afirmar que o Brasil não aceitará repetir a lógica histórica de exportador bruto de riquezas naturais, exigindo participação efetiva na cadeia de valor e preservação da soberania nacional sobre esses recursos.
Ao mesmo tempo, Washington demonstra preocupação crescente com a expansão chinesa na América Latina. Nos últimos quinze anos, a China substituiu os Estados Unidos como principal parceiro comercial brasileiro, alterando profundamente o eixo econômico regional. Lula, inclusive, mencionou explicitamente que os estadunidenses “deixaram de olhar para a América Latina” durante anos, enquanto Pequim ocupava esse espaço com investimentos, infraestrutura e comércio.
Nesse sentido, o encontro também teve um forte componente geopolítico. Trump sabe que conter a influência chinesa no hemisfério passa, necessariamente, pelo Brasil. E Lula, por sua vez, sabe que preservar canais sólidos com Washington é essencial para evitar que o país fique excessivamente dependente de Pequim, em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.
Há ainda outro ponto importante: a questão da segurança e do combate ao crime organizado transnacional. Ainda que o tema, nesse cenário dialógico, não tenha ganhado grande destaque nas conversas bilaterais, é sabido que a questão ocupa relevância para ambos os países, visto o avanço das organizações criminosas latino-americanas e a crescente preocupação dos Estados Unidos com narcotráfico, armas e lavagem de dinheiro. Contudo, aqui surgem divergências sensíveis. O governo Trump tem ampliado a retórica de securitização regional, inclusive, cogitando enquadramentos mais agressivos contra facções criminosas latino-americanas. O Brasil demonstra cautela diante dessa possibilidade, sobretudo porque ela poderia abrir espaço para pressões externas sobre temas tradicionalmente tratados como assuntos internos e de soberania nacional.
O encontro também produziu sinais importantes no campo econômico. A criação de grupos de trabalho para discutir tarifas e barreiras comerciais pode representar uma redução das tensões acumuladas nos últimos meses, especialmente após as ameaças tarifárias impostas por Trump sobre produtos brasileiros. Embora não haja garantia de normalização plena, o simples fato de ambos os governos retomarem mecanismos institucionais de diálogo já reduz riscos de deterioração comercial imediata.
Mas, talvez, o aspecto mais interessante tenha sido o simbólico. Lula descreveu a conversa como marcada por “química” entre os dois líderes, enquanto Trump chamou o Presidente brasileiro de “homem bom” e “cara inteligente”. Na diplomacia, símbolos importam. Ainda mais quando envolvem lideranças conhecidas por personalizar fortemente as relações internacionais.
Isso não significa ausência de conflitos futuros. Muito pelo contrário. Persistem divergências profundas sobre regulação de plataformas digitais, meio ambiente, guerra comercial, Venezuela, Cuba, organismos multilaterais e o próprio modelo de ordem internacional. Lula continua defendendo um sistema multipolar e criticando unilateralismos; Trump permanece fiel à lógica “America First”.
No fundo, a reunião entre Lula e Trump mostrou que a diplomacia contemporânea deixou de funcionar apenas pela afinidade política. Hoje, ela opera, sobretudo, pela necessidade estratégica. E, em um mundo cada vez mais instável, talvez isso seja exatamente o que mantém certas pontes de pé.