
Foto de Hannah Olinger na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost
Uma crônica com perfume do fogão a lenha e aquela ponta de tristeza.
Uma crônica que olha para trás tomando consciência do quanto as ausências ocupam espaço.
Uma crônica como um rastro deixado pelo caminho, que nos prova que em muitos momentos felizes.
Uma crônica não sobre as importâncias que na vida acumulamos, mas sobre aquilo que nos vimos obrigados a perder para aprendermos a crescer.
Uma crônica não apenas como relato, não apenas como narrativa, nãos apenas como poema em prosa, não apenas como ensaio, não apenas como esquete, não apenas como registro do tempo.
Uma crônica como essa chuva tamborilando no telhado, como a roupa que ainda guarda o cheiro de quem partiu. Mas uma crônica não apenas como parábola da saudade.
Uma crônica como as cortinas suportando a demasiada claridade, como o pó dançando no raio de sol da tarde.
Uma crônica com o hálito das gavetas dos móveis antigos e o ranger das dobradiças que tentam, em vão, morder o tempo.
Uma crônica como um sapato gasto de tanto trajeto, como um traje social puído de tanta presença, como o vinco marcado no lençol estendido na cama, como a cama promessa de repouso.
Uma crônica como uma coleção de porta-retratos que olham e olham e olham, como cadeiras vazias a sustentarem o peso de corpos invisíveis.
Uma crônica não sobre a harmonia das coisas, mas sobre a anatomia do abandono,
Uma crônica como o estalo da madeira à noite, como uma casa que envelhece como um animal de grande porte. Isso, um animal de grande porte.
Uma crônica exatamente como esta crônica.