Sempre esteve ali
30/04/2026 às 09:52
Os dentes eram brancos, um pouco separados, chamavam atenção quando ele insistia em sorrir. De longe percebíamos a alegria que saía daquele rosto, um olhar que convidava: venha, volte, compartilhe a vida comigo. Assim, víamos os braços balançando, num balé quase um samba, na despedida.
Pouco se importava com a camiseta desbotada, a calça manchada ou a camisa mal passada. Sapatos, não. Usava apenas tênis. Na fala, palavras simples, algumas gírias, sem perder o cuidado: educado, gentil.
Transbordava sabedoria na maneira de viver e conviver nos lugares que frequentava. Ninguém sabia ao certo de onde vinha. Mas vinha e ia, sempre bem recebido.
Aparecia devagar, cumprimentava com discrição, ocupava os espaços sem esforço. Havia quem jurasse tê-lo visto no mercado, carregando sacolas de alguém que mal podia andar. Outros diziam que surgia na praça, sempre no mesmo banco, pronto para ouvir. E escutava.
Escutava inteiro, corpo inclinado, atenção firme. Às vezes ria antes do final. Outras, silenciava de um jeito que fazia o outro continuar.
Numa quinta-feira comum, disseram tê-lo visto entrar na delegacia. Não sorria. Usava terno, sapatos de verniz, gravata, e carregava uma pasta.
A notícia correu miúda, de boca em boca. Cada um acrescentava um detalhe, mas todos concordavam: era ele. Difícil de acreditar.
Na sexta, apareceu na padaria. Tênis gastos, camiseta desbotada, o mesmo balanço leve dos braços. Cumprimentou, pediu café, perguntou da vida. Ninguém tocou no assunto. Nem ele.
Mas havia algo fora do lugar. Não no que fazia ou dizia. Era no intervalo. Um silêncio mais fundo, com algo represado.
Dona Liliana reparou primeiro. Disse que o olhar estava diferente. Não triste, não preocupado. Guardado. Ainda assim, quando sorria, os dentes separados estavam lá.
Depois disso, outros notaram. E alguém lembrou: ninguém nunca tinha visto onde ele morava. Nem de onde vinha. Nem para onde ia. E, ainda assim, estava sempre ali.
Ele conhecia cada um. Sabia das histórias, das faltas, dos silêncios.
Sentado na praça, naquele banco de sempre, resolveu falar. Disse o nome. Disse que não ia sossegar enquanto não fizessem justiça com Bentinho. Depois se levantou e seguiu.
Ninguém chamou. Ficaram olhando o caminho, com uma tristeza quieta, mas acreditando. Quando voltaram ao banco, viram duas penas pequenas, brancas. Ninguém disse nada.
Na praça não havia ganso, nem galinha, nem passarinho. E, ainda assim, as penas estavam ali.
 
01.04.26 Bebel Ritzmann
 
Comentários    Quero comentar
* Os comentários não refletem a opinião do Diário Indústria & Comércio