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Por Jorge Amaro Bastos Alves*
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força no Congresso Nacional, embalado por um discurso sedutor: trabalhar menos, descansar mais e melhorar a qualidade de vida. À primeira vista, parece uma proposta civilizatória. O problema é que a economia não funciona por desejo, mas por produtividade, custos e competitividade. E, nesse ponto, o Brasil entra no debate pela porta errada.
Produtividade do trabalho é, em termos simples, quanto um trabalhador consegue gerar de riqueza em determinado período, normalmente por hora trabalhada. Ela não depende apenas do esforço individual. Depende de capital, tecnologia, educação, infraestrutura, organização das empresas e, sobretudo, do ambiente econômico em que as empresas operam. É justamente aí que mora o problema brasileiro.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil ocupa apenas a 94ª posição entre 184 países em produtividade do trabalho, com produção média em torno de US$ 21 por hora. O país fica atrás de economias latino-americanas e muito distante das nações desenvolvidas. No G7, a média supera US$ 70 por hora, e os Estados Unidos ultrapassam os US$ 80. Esse diferencial não é detalhe – é o que separa economias ricas de economias que lutam para crescer.
Esse quadro deveria impor prudência. Reduzir jornada por lei, sem antes elevar a produtividade, significa aumentar o custo relativo do trabalho. Em setores de baixa margem, como comércio, serviços e pequenas empresas, a conta não fecha por decreto. Alguém pagará: o empresário, com menor margem; o consumidor, com preços mais altos; ou o trabalhador, com menos vagas, mais informalidade e menor capacidade de negociação salarial.
Como lembrava Milton Friedman, economista norte-americano e prêmio Nobel, “o salário real de um trabalhador depende da sua produtividade”. Ignorar essa relação básica é tratar o sintoma e não a causa do problema.
Os defensores da proposta costumam citar países ricos com jornadas menores. Mas esquecem o essencial: essas economias reduziram horas depois de construir alta produtividade. Alemanha, Noruega, Dinamarca e Estados Unidos não chegaram onde estão por decreto trabalhista. Chegaram com investimento, tecnologia, gestão eficiente e ambiente institucional favorável à produção. Primeiro veio a produtividade; depois, a redução da jornada. No Brasil, tenta-se inverter essa lógica.
A comparação internacional é incômoda. A China, que durante décadas teve produtividade muito inferior à brasileira, avançou com industrialização, escala e inserção global. A Índia segue trajetória semelhante. Ambos trabalham, em média, mais horas do que o Brasil. O problema brasileiro não é simplesmente trabalhar muito – é produzir pouco por hora trabalhada.
A proposta em debate trata a jornada como causa central do problema do trabalhador. Mas a raiz é outra. O trabalhador brasileiro está inserido em uma economia travada: excesso de burocracia, tributação elevada, crédito caro, infraestrutura precária e insegurança jurídica. É um ambiente que limita ganhos de eficiência e impede avanços consistentes de produtividade.
Melhorar a vida do trabalhador é um objetivo legítimo. Mas não será alcançado por atalhos legislativos. A agenda correta é mais direta — e mais difícil: reduzir o peso do Estado onde ele atrapalha, simplificar o sistema tributário, ampliar a liberdade econômica, garantir segurança jurídica e criar condições para que a iniciativa privada invista, produza e inove.
Acabar com a escala 6x1 por imposição constitucional pode soar bem no discurso. Na prática, tende a ser mais um movimento na direção errada. O país que já perde competitividade corre o risco de produzir menos, empregar menos e crescer menos. E, como tantas vezes na história econômica brasileira, a conta final recairá sobre quem se dizia proteger: o trabalhador.
* Economista