Vendas do varejo brasileiro devem cair a partir do segundo trimestre deste ano
22/04/2026 às 05:00
Estudo aponta que o ambiente macroeconômico adverso, marcado por juros elevados, crédito restrito e aumento da inadimplência, tem reduzido o poder de compra e levado os consumidores a adotarem uma postura mais cautelosa

O consumo das famílias brasileiras deve enfrentar um período de forte desaceleração no segundo trimestre de 2026, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (IBEVAR) em parceria com a FIA Business School. O estudo aponta que o ambiente macroeconômico adverso, marcado por juros elevados, crédito restrito e aumento da inadimplência, tem reduzido o poder de compra e levado os consumidores a adotarem uma postura mais cautelosa. De acordo com as projeções, o varejo ampliado — que inclui setores como veículos e materiais de construção — deve registrar queda de 1,59% em relação ao trimestre anterior, além de leve recuo de 0,09% na comparação anual. O varejo restrito também apresenta retração no curto prazo, refletindo um consumidor cada vez mais pressionado pela perda de renda disponível e pelo encarecimento do crédito. A análise por segmentos revela um cenário heterogêneo, porém predominantemente negativo. Enquanto algumas categorias específicas, como artigos farmacêuticos, móveis e eletrodomésticos e automóveis, ainda apresentam crescimento moderado, outros segmentos, especialmente aqueles ligados a bens não essenciais, registram quedas expressivas, evidenciando a priorização de gastos básicos pelas famílias.
MAIORIA DOS SETORES TEM RETRAÇÃO
No setor de serviços, o quadro é de aparente estabilidade, com variação média de apenas 0,2% em relação ao trimestre anterior. No entanto, o dado agregado esconde uma deterioração significativa: dos 32 segmentos analisados, a maioria — 22 deles — deve apresentar retração, indicando um enfraquecimento disseminado da demanda. Apenas uma parcela menor dos serviços consegue sustentar crescimento, em geral associada a áreas específicas como saúde e entretenimento. O estudo conclui que o Brasil atravessa um momento de “consumo defensivo”, caracterizado por escolhas mais seletivas e adiamento de compras de maior valor. A combinação de taxas de juros elevadas, que ultrapassam 60% ao ano nas operações de crédito para pessoas físicas, com o avanço da inadimplência, tem pressionado o orçamento das famílias e limitado o dinamismo do consumo. 
INADIMPLÊNCIA EMPRESARIAL CRESCE QUASE 14% EM FEVEREIRO
O número de empresas inadimplentes no Brasil cresceu 12,65% em um ano, refletindo um cenário de maior pressão financeira sobre o ambiente de negócios. O avanço ocorre em meio a juros elevados, custo do crédito mais alto e ao aumento da inadimplência entre consumidores, fator que impacta diretamente o fluxo de caixa das empresas. Segundo João Paulo Travasso Cardoso, Coordenador de Pré e Pós-vendas do SPC Brasil, o aumento da inadimplência empresarial está ligado à dinâmica entre empresas e consumidores. “Um puxa o outro. Em um cenário econômico como o atual, as empresas precisam se ajustar, o que pode levar ao crescimento da inadimplência. Como o consumidor também enfrenta dificuldades financeiras, a capacidade de pagamento das empresas acaba sendo impactada”, afirma. Entre os setores, os Serviços concentram a maior parcela de empresas inadimplentes, representando cerca de 39% do total, com crescimento próximo de 8% em relação a fevereiro do ano passado. O segmento foi um dos mais afetados pela inflação recente, o que ajuda a explicar a maior vulnerabilidade financeira. Diante desse cenário, especialistas recomendam maior atenção ao controle financeiro e ao monitoramento da carteira de clientes. Com os níveis recordes de inadimplência do consumidor, o acompanhamento dos recebíveis se torna ainda mais estratégico para evitar impactos no caixa das empresas. Outro movimento observado é a antecipação das renegociações de dívidas. Segundo João Paulo, empresas têm buscado acordos mais rapidamente para evitar que os juros elevados ampliem o peso das pendências financeiras.
IMPORTAÇÕES PODEM SER SOLUÇÃO DESDE QUE ESTRUTURADAS
Importar da China pode parecer um atalho natural para ampliar margens em um ambiente de pressão de custos. E, de fato, tem sido. O aumento do volume de importações no Brasil reflete um movimento claro de empresas em busca de eficiência e competitividade. Mas há um outro ponto nessa equação: a operação, quando mal estruturada, deixa de ser vantagem e passa a corroer resultado. Dados recentes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram uma corrente de comércio robusta, com superávit de US$ 1,4 bilhão na terceira semana de março de 2026. O número confirma o dinamismo do comércio exterior brasileiro, mas também expõe um efeito colateral relevante. Com mais empresas acessando fornecedores internacionais, cresce também o número de operações mal planejadas. Na avaliação de Luis Muller, fundador da Asia Source Brasil, a primeira franquia de importação do país, o movimento é consequência direta da pressão por eficiência. Quando o custo interno sobe e a margem aperta, a importação surge como alternativa quase inevitável. O problema é que muitas empresas entram nesse processo sem domínio técnico. E, nesse contexto, o erro não é pontual. Para o especialista, o dado ganha relevância justamente por evidenciar um movimento mais amplo de mercado, em que a competitividade passa cada vez mais pela estrutura de custos. “Não se trata apenas de volume importado, mas de como as empresas estão tentando se reposicionar. O problema é que muitas entram nesse processo sem domínio técnico da operação”, explica.
VENDA DE VEÍCULOS POPULARES CRESCE 32%
O presidente da República em exercício, Geraldo Alckmin, comemorou os resultados do programa Carro Sustentável, lançado pelo Governo do Brasil em julho de 2025. Segundo dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), a venda de carros de entrada subiu 32,9% nos dez meses do programa. "Com IPI zero, sem imposto, seis montadoras se adequaram e estão habilitadas, com carros mais baratos, descontos nas concessionárias e nas montadoras. Com isso, a indústria produz mais, o comércio vende mais, só concessionárias são mais de 8 mil no Brasil. De outro lado, tem a importância social, nós não estamos zerando imposto para carros de 200 mil reais, estamos zerando para o carro de entrada; e ambiental, carro que polui menos e com alta reciclabilidade", disse Geraldo Alckmin, presidente da República em exercício. O Carro Sustentável faz parte do programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e prevê a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) a zero para carros de entrada flex fabricados no Brasil, com 80% de reciclabilidade e baixa emissão de CO2. Alckmin visitou duas concessionárias em Valparaíso (GO), que registraram aumentos de 31% e 50% nas vendas desse tipo de veículo desde a implementação do programa.
BRASILEIROS DE MENOR RENDA PREFEREM OS BANCOS DIGITAIS
Os bancos digitais vêm ganhando cada vez mais espaço entre os brasileiros, especialmente entre os jovens e as classes de menor renda. A pesquisa “Branding Brasil Segmentos – Edição Financeiro”, conduzida pelo Valometry, ferramenta de gestão de branding da agência anacouto, aceleradora de negócios que atua da estratégia à execução por meio de campanhas 360º, revela que 79% das pessoas com renda familiar de até aproximadamente 2,3 salários mínimos afirmam utilizar mais os bancos digitais do que os tradicionais. A preferência também é marcante entre o público mais jovem: 82% dos entrevistados de 18 a 24 anos declararam optar por esse tipo de instituição. A pesquisa foi realizada entre julho de 2024 e abril de 2025, com a participação de 2.989 consumidores. O estudo mostra que 68% dos brasileiros se dizem dispostos a compartilhar dados financeiros em troca de melhores serviços e condições. “O número sinaliza uma mudança de comportamento: o consumidor está mais aberto a fornecer informações sensíveis quando percebe valor na troca. Transparência no uso dos dados e confiança na instituição são fatores decisivos”, afirma Ana Couto, CEO da agência anacouto, LAJE, Valometry e É,Faz&Fala. 
EMPREENDEDORISMO APÓS OS 60 ANOS
O Brasil soma 4,5 milhões de empreendedores da chamada Economia Prateada, que reúne os maiores de 60 anos. O número cresceu 58,6% na última década, de acordo com o Sebrae Nacional. A entidade desenvolve programas voltadas para o chamado empreendedorismo sênior, focado em apoiar o público nesta faixa etária que deseja investir em negócios próprios. Em 2025, o programa atendeu 869 mil pessoas e a meta para 2026 é chegar a 1 milhão. A gestora nacional do programa Empreendedorismo Sênior 60+, Gilvany Isaac, descreve esse crescimento como uma “onda forte”, em razão do desejo desse público em permanecer ativo. “Existe uma possibilidade de carreira, de continuidade. Tenho visto que as pessoas de 60 anos se identificam com um propósito. Elas querem algo que tenha a ver com a sua experiência, mas que resolva também problemas da comunidade”, aponta Gilvan. Aliado ao desejo de empreender, o crescimento dos negócios comandados pelos 60+ está relacionado também às transformações populacionais e, por consequência, do mercado de trabalho.  O aumento da expectativa de vida ao nascer – que era e 62,6 anos em 1980 e passou para 76,4 anos em 2023 -  impactou o mercado de trabalho para a chamada Geração Prateada (60+). Atualmente, um quinto da população brasileira em idade para trabalhar é composta por este grupo, aponta estudo da pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Janaína Feijó.
 
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