Mercado de M&A deve ganhar tração em 2026, mas preparo ainda é gargalo para empresas brasileiras
Retomada do mercado de fusões e aquisições ganha força com liquidez global e juros em queda, mas empresas ainda enfrentam entraves internos para aproveitar o ciclo positivo.
16/04/2026 às 08:31
Caio Galves, Marco França e Fábio Arruda, especialistas em M&A da Auddas
O mercado de fusões e aquisições (M&A) entra em 2026 com sinais mais consistentes de retomada, sustentado por uma combinação de liquidez global, expectativa de queda de juros e maior apetite de investidores por ativos de risco. Ainda assim, o principal desafio segue dentro de casa, a preparação das empresas para capturar valor nas transações.
O alerta é de Marco França, Fábio Arruda e Caio Galves, especialistas em M&A da Auddas, que analisaram o cenário atual e as perspectivas para os próximos anos a partir de um relatório recém-lançado pela consultoria. “O tema gira em torno de uma pergunta simples, mas extremamente complexa: é a hora certa de vender ou captar recursos?”, afirma Fábio Arruda. Segundo ele, a resposta depende de uma série de variáveis macro e microeconômicas. “O objetivo do relatório é justamente ajudar o empresário a entender essas variáveis e navegar melhor em diferentes momentos do mercado”.
Novo ciclo
Após o pico de transações registrado em 2021, seguido por uma desaceleração em 2022 e 2023, o mercado começa a se estabilizar em um novo patamar. “A gente chama esse momento de ‘novo normal’, com uma retomada mais equilibrada em 2024 e 2025”, explica Arruda. Ele destaca que ciclos de alta costumam vir acompanhados de dois efeitos claros: aumento no número de transações e elevação dos valuations. O movimento inverso ocorre em momentos de retração. “Em 2023, vimos menos negócios e tickets menores, reflexo de um ambiente mais restritivo.”
No Brasil, a dinâmica das operações revela tendências estruturais. “Entre 80 e 120 transações ocorrem por mês, e metade envolve tecnologia”, afirma Marco França. “Isso mostra a vocação das empresas por produtividade, processos e automação”. Outro ponto relevante é a predominância das pequenas e médias empresas. “Mais de 85% das transações acontecem no middle market”, diz Arruda. Apesar disso, grandes operações ainda concentram boa parte do volume financeiro.
Para França, há uma distorção na percepção pública. “É bonito ver grandes negócios no jornal, mas quem movimenta o mercado é o pequeno e médio empresário, e ele, muitas vezes, não está preparado”.
Falta de preparo
A preparação, aliás, é apontada como um dos principais gargalos. “O empresário acha que está organizado porque nunca passou por um processo de venda”, observa França. “Mas M&A é como um cadeado de mil combinações: se faltar uma, ele não abre”. Esse desalinhamento aparece com força na fase de diligência. “Existe uma diferença entre ter controles internos e estar pronto para uma auditoria de comprador”, provoca Arruda.
As consequências são diretas. “A mais óbvia é o impacto no preço”, diz França. “O comprador ajusta o valuation ao identificar inconsistências, seja na estrutura financeira, seja na governança”. Além disso, atrasos na entrega de informações podem esfriar negociações. “O comprador olha várias empresas ao mesmo tempo, quem está preparado passa na frente”. Galves resume o efeito: “É uma quebra de expectativa, no preço, no prazo e no esforço necessário para concluir a transação”.
Capital estrangeiro
Do ponto de vista macroeconômico, o ambiente tende a favorecer o mercado. A expectativa de expansão monetária nos Estados Unidos, combinada à queda das taxas de juros, deve aumentar a liquidez global. “Mais dinheiro no sistema significa maior apetite por ativos de risco, como empresas privadas. E isso tende a beneficiar mercados emergentes como o Brasil”, explica Arruda.
O movimento já começa a aparecer. “O investidor estrangeiro está voltando, primeiro pela bolsa, que é mais líquida, e depois migrando para o capital privado”, diz Galves. França reforça que o Brasil está no radar por uma combinação de fatores. “O país está barato e os fundos precisam alocar capital. Mesmo com riscos institucionais, o investidor ajusta isso no preço”.
Valuation e novos mercados
Outro vetor importante é a expectativa de redução da taxa de juros no Brasil. “Se a Selic cair de 15% para algo próximo de 10% ou 11%, o impacto no valuation é imediato”, afirma França. “É matemática: menor taxa de desconto, maior valor das empresas”. Além disso, o mercado observa uma retomada gradual do interesse por IPOs, tradicionalmente o momento de maior valorização de uma companhia. “Quando o mercado de capitais aquece, todo o ecossistema de M&A acompanha”, completa.
O cenário também abre espaço para estruturas híbridas de capital. “Estamos vendo crescer operações que misturam dívida e equity, os chamados special situations”, aponta Arruda. “São soluções customizadas que combinam retorno financeiro com participação estratégica”. Esse modelo tem ganhado força especialmente no middle market, onde empresas buscam alternativas mais flexíveis de financiamento.
Apesar das oportunidades, os especialistas alertam para armadilhas frequentes, especialmente relacionadas à governança e à integração pós-negócio. “Não existe M&A com baixa exigência de governança só porque a empresa é pequena. Isso é um mito”, afirma França. Segundo ele, investidores, especialmente estrangeiros, mantêm alto nível de rigor independentemente do porte. Além disso, a mudança societária traz impactos culturais. “Namorar é uma coisa, casar é outra. Mudam regras, processos, autonomia e até a forma de tomar decisão”, resume.
Para Galves, o desafio é reduzir atritos desde o início. “O comprador será seu sócio no dia seguinte. Nosso papel é garantir que essa relação comece da melhor forma possível”.
Diferencial competitivo
Com processos que podem durar de 10 a 20 meses, o timing da preparação é crucial. “Se você quer capturar o valor desse ciclo positivo, precisa começar agora”, orienta Galvez. França reforça que preparo vai além de ajustes pontuais. “É ter estratégia, orçamento, governança, time forte. Isso melhora a empresa independentemente de uma venda e, quando a oportunidade aparece, aumenta o valor e a probabilidade do negócio acontecer”.
Na avaliação dos especialistas, o cenário aponta para um ciclo favorável nos próximos anos. “A combinação de liquidez, queda de juros e fluxo para mercados emergentes indica um 2026 positivo e um 2027 ainda mais forte”, projeta Arruda. Há, no entanto, fatores de atenção, como o ambiente eleitoral e a confiança institucional. “O investidor precifica risco. Mas, no fim do dia, o capital encontra oportunidade, e o Brasil continua sendo um mercado relevante”, conclui França.
 
Comentários    Quero comentar
* Os comentários não refletem a opinião do Diário Indústria & Comércio