
Daniel Pisano
Entre a ascensão da inteligência artificial e a disputa pela atenção, o South Summit Brazil 2026 mostrou que o futuro dos negócios não será definido apenas pela tecnologia, mas pela capacidade das empresas de manter o humano no centro das decisões.
O South Summit Brazil 2026 transformou Porto Alegre, mais uma vez, em um dos principais polos globais de inovação. Instalado no Cais Mauá, o encontro reuniu executivos, fundadores, investidores e criadores de conteúdo em uma agenda que deixou de lado o discurso futurista e trouxe um tom mais pragmático. Nos primeiros dias, a inovação apareceu menos como promessa e mais como operação concreta dentro das empresas.
Uma provocação, no entanto, atravessou painéis e conversas de bastidores: a inteligência artificial está sendo desenvolvida para servir às pessoas ou as pessoas estão sendo treinadas para servir à lógica dos algoritmos? A questão sintetiza um dos principais debates do evento e revela um risco crescente à medida que a tecnologia avança.
O tema desta edição, “Human by Design”, ganhou força não como slogan, mas como diretriz. A proposta de colocar o humano no centro do desenvolvimento tecnológico foi recorrente, especialmente diante de sinais de inversão já perceptíveis no mercado. Hoje, comportamentos são moldados para performar melhor em plataformas digitais, decisões são tomadas com base exclusiva em dados e experiências são desenhadas para maximizar retenção, nem sempre valor.
Esse contexto deu o tom das discussões sobre a nova fase da tecnologia, em que a evolução é inevitável, mas a perda de protagonismo humano não precisa ser.
No primeiro dia, a inteligência artificial generativa dominou os debates, mas com uma mudança relevante de abordagem. O tema deixou de ser tratado como novidade e passou a ser encarado como ferramenta operacional. A tecnologia já está integrada ao dia a dia das empresas, sendo aplicada em criação de conteúdo, análise de dados e otimização de processos. Não se trata mais de experimentação, mas de execução em escala.
Outro ponto de destaque foi a transformação do papel dos criadores de conteúdo. Eles deixaram de atuar apenas como canais de mídia e passaram a ocupar uma posição estratégica, participando do desenvolvimento de produtos, da distribuição e da construção de marca com maior proximidade do consumidor.
No segundo dia, as discussões avançaram para temas estruturais, como mobilidade elétrica e cidades inteligentes, indicando que a inovação também está na infraestrutura. A transição energética apareceu como realidade em curso, enquanto plataformas de mensagem foram apontadas como novos ambientes de negócios, integrando comunicação, vendas e relacionamento, especialmente no varejo. Ao longo do evento, um consenso se consolidou: audiência, por si só, não sustenta negócios. O diferencial está na capacidade de transformar atenção em operação estruturada e recorrente. Nesse cenário, o influenciador tradicional dá lugar ao empreendedor digital.
A partir dessas discussões, três movimentos ganharam força. O primeiro é que a inteligência artificial deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser requisito básico. “Empresas que ainda tratam IA como inovação já operam em desvantagem. O segundo é que a confiança do consumidor se tornou o principal campo de disputa, com prova social, conteúdo gerado por usuários e reputação digital assumindo papel central na decisão de compra. O terceiro é a consolidação dos criadores como canais relevantes de distribuição, ao lado de estratégias tradicionais como e-mail marketing e SEO”, explica Daniel Pisano, Head de investimentos da 87 Labs e CGO da Payloop.
Mais do que tendências, o evento apontou para uma mudança estrutural. As empresas que devem liderar essa nova fase não serão necessariamente as mais tecnológicas, mas aquelas capazes de equilibrar tecnologia e sensibilidade humana. “Em um ambiente cada vez mais automatizado, o diferencial competitivo passa a ser a capacidade de transformar interações em relações e relações em comunidades”, finaliza Marcelo Gontijo CEO da Novoto.