
Todos os dias, a pequena Dubi pegava seus lápis de cor e desenhava flores. Não eram flores comuns. Eram só dela, inventadas, com cores improváveis e cheiros que apenas Dubi conhecia.
Cada uma tinha nome, sobrenome e uma história inteira à espera de quem quisesse ouvir. Se deixassem, a menina narrava sem pressa: falava de flores que sentiam, pensavam, sonhavam. Algumas, mais ousadas, chegavam a dar conselhos aos adultos: esses seres tão sérios, tão apressados.
Um dia, Dubi saiu para passear com as amigas Dúvida e Certeza. Caminhava entre as duas. Certeza ia sempre adiante, passos largos, sem olhar para trás, como quem já sabe exatamente onde quer chegar. Dubi, no meio, esticava o braço para alcançá-la, enquanto com a outra mão segurava a Dúvida, que teimava em parar, tropeçar, sentar no meio do caminho e perguntar se aquele era mesmo o rumo certo.
Certeza falava pouco. Quando falava, era para afirmar. Dúvida falava demais. Perguntava sobre o céu, sobre as pedras, sobre o motivo das coisas serem como eram. Dubi ouvia as duas com atenção. Às vezes se cansava, mas não soltava nenhuma delas. Intuía, mesmo sem saber explicar, que precisava das duas para seguir adiante.
No bolso do vestido, carregava um lápis de cor. Azul de manhã, amarelo à tarde, vermelho quando o coração batia mais rápido. Se o caminho ficava confuso, Dubi desenhava no ar. E os desenhos, invisíveis para os outros, abriam trilhas secretas por onde só ela sabia passar.
Ali, entre a pressa da Certeza e os freios da Dúvida, a menina começava a aprender, sem perceber, o ofício que escolhera: transformar o mundo em palavras antes mesmo de saber escrevê-las.
20.01.26 Bebel Ritzmann