MENUx
Foto de JOHN TOWNER na UnsplashEra muito cedo. Talvez ainda escuro. Levantar-se não fazia sentido. O dia começava sem promessa, como tantos outros, sem anúncio de melhora, sem qualquer sinal que o diferenciasse do anterior.
O ontem não passara. Permanecia inteiro, pesado, ocupando o ar. Nuvens, galhos, perdas, imagens soltas, sem ordem, mas insistentes. Nada se organizava o suficiente para caber em pensamento. O que havia era uma massa, um resto de mundo que não se dissolvia com o sono.
Arlete, perto dos cinquenta, já conhecia o que vinha depois das tempestades. Não era novidade. A vida lhe ensinara a reconhecer esses dias antes mesmo de abri-los. Ainda assim, o corpo não respondia. Ficava. Deitado. Preso ao colchão gasto, que guardava as marcas de muitas noites mal dormidas e de outras tantas manhãs adiadas.
Não era escolha. Havia um limite que o corpo impunha, um ponto em que insistir deixava de ser força e passava a ser desgaste inútil. E ela, que sempre insistira, aprendera também a reconhecer quando não havia passagem.
Esperava. Não por algo específico, não por uma mudança clara, não por um pensamento salvador. Esperava como quem permanece. Em algum momento, levantaria. Sempre levantava. Não por vontade, a vontade, nesses dias, era coisa distante, mas por continuidade. Porque o corpo, mesmo recusando, não sustenta para sempre a própria recusa.
Respirava fundo. O ar entrava, saía. Nada mudava. Nem o peso, nem o pensamento rarefeito, nem aquela sensação de estar inteira e, ao mesmo tempo, ausente de si.
Pensar não ajudava. Entender não chegava. As perguntas se desfaziam antes de se completarem. Restava o corpo, fechado, recusando o dia, recusando o mundo, recusando até mesmo a tentativa de nomear o que sentia.
O coração, rompido pela terceira vez, persistia. Não cicatrizava. Também não cessava. Continuava ali, batendo sem alívio, como um trabalho que não se interrompe, ainda que já não se saiba ao certo para quê.
O tempo passava sem medida. Não havia relógio que desse conta daquele intervalo. A manhã avançava sem ser percebida, ou talvez nem avançasse, apenas se acumulasse sobre ela, espessa.
Até que, em algum ponto invisível, o corpo cedia, não à dor, que continuava, mas ao movimento. Um gesto mínimo primeiro. Um braço. Um giro lento. O peso redistribuído. E então, sem decisão clara, se levantava.
Nunca era retorno. Havia algo a mais, discreto, quase imperceptível. Um acúmulo. Como se cada queda deixasse um resto que não se perdia, uma camada fina, difícil de ver, mas impossível de apagar.
Arlete não nomeava isso. Não pensava nisso. Pensar exigia uma clareza que não lhe interessava. Apenas seguia.
O dia, então, começava de fato, não porque houvesse mudado, mas porque ela passava a atravessá-lo. Preparava o café, ainda que sem fome. Arrumava a casa em gestos mecânicos que, aos poucos, ganhavam intenção. Olhava pela janela sem procurar nada específico, mas ficando um pouco mais tempo do que o necessário. E, quando se voltava para o que fazia, qualquer que fosse a tarefa, algo se concentrava.
Fazia. Inventava. Empenhava-se inteira, sem medida. O que tocava ganhava forma, peso, presença. Havia uma espécie de rigor silencioso em seus gestos, uma entrega que não pedia reconhecimento, mas que, ainda assim, produzia resultado. E dava certo.
Não de maneira espetacular, não como vitória anunciada, mas de um jeito firme, contínuo, sustentado. As coisas se organizavam ao redor daquele esforço. Cresciam. Tomavam lugar.
Quem olhava de fora via constância. Às vezes, sucesso. Não via o início interrompido, o corpo que recusava, o tempo suspenso da manhã. Não via o preço.
Arlete também não media isso. Não fazia contas. Não transformava em lição. Apenas seguia, como quem cumpre uma tarefa que não escolheu, mas que aprendeu a realizar com precisão.
Não era leve. Nunca fora leve. Mas havia firmeza. E, a cada vez, um pouco menos de dúvida. Não porque tivesse respostas, mas porque já não esperava por elas.
Ao fim do dia, outro dia qualquer, o corpo cansava de novo. Um cansaço diferente, mais concreto, quase honesto. Deitava-se sem cerimônia, levando consigo o que fizera, sem pesar, sem orgulho.
Às vezes, antes de dormir, um pensamento tentava se formar, algo sobre recomeço, sobre resistência, sobre aquilo que nela não cedia. Mas não se completava. Não era necessário. O que ficava era outra coisa. Um corpo que seguia. Mais assentado dentro de si.
E, no fundo, quase em silêncio, uma certeza muda, não de que não cairia mais,
mas de que, ao cair, jamais voltaria ao mesmo lugar.