
Pela manhã, andares apressados, copos na mão, olhos inchados, cabelos despenteados, pipoqueiro passando com carrinho, banco com as pernas para o ar, ombrelone fechado em cima, gente pra lá, gente pra cá, um homem de regata, bermuda e chinelos, outro de terno e gravata, uma mulher de moletom, fones de ouvido, óculos e chapéu, outra de calça bem passada, saltos altos, brincos exagerados, batom, camisa com babados.
E eu aqui.
O tempo passa desesperado como se hoje fosse o último dia das vidas de todos. Transportes coletivos passando lotados, buzinando, como quem diz: saiam da frente. Pessoas em pé, sentadas, olhos vidrados nos celulares, motos, monociclos, bicicletas, skates. Vejo crianças, velhos, jovens, correndo, andando, passeando.
E eu aqui.
Chega o sol no centro do céu, os transportes urbanos começam novos trajetos, repetindo por vezes e vezes. Os transportes de plataformas digitais apitam, falam novos destinos, trocam de passageiros a cada cinco minutos. Os carros particulares nas ruas, nos estacionamentos privados, em cima das calçadas, nas garagens. Motocicletas passam voando, como se faltassem horas no dia desses entregadores, mochilas enormes nas costas, algumas na contramão, pilotos e passageiros sem capacetes, motos acorrentadas em postes, bicicletas presas em gradis de condomínios lotados de gente diversa.
E eu aqui.
A lua apressada aparece antes de anoitecer, os relógios giram com mais rapidez, os apitos das fábricas, as sirenes dos colégios, as filas em mão dupla, as buzinas, roncos de motor, aceleradas, gritos de alerta, gritos de reclamação, gritos de crianças brincando, gritos do jogo que começou no bar em frente. Pessoas passando com instrumentos: violão, teclado, saxofone...
A música. Ah! A música.
Ela atravessa a rua sem pedir licença. Escorre pelas portas abertas dos carros, sobe pelas janelas dos prédios, mistura-se ao barulho das buzinas e das conversas apressadas. Um rapaz dedilha acordes tímidos na calçada. Um saxofone suspira ao longe. Alguém bate palmas fora de tempo.
E eu aqui.
A cidade não para. Nunca parou. Talvez nunca pare. O sol já não manda mais em nada. A lua toma seu lugar com pressa, como quem também tem compromissos. As luzes se acendem uma a uma. Amarelas, brancas, algumas piscando. Gente voltando. Gente chegando. Gente que parece não ir nem vir.
E eu aqui.
Às vezes penso que todos estão fugindo de alguma coisa. Outras vezes penso que correm apenas porque aprenderam que é assim que se vive.
Uma criança pendurada feito canguru na barriga do pai, que puxa mais dois cachorros pelas guias, me vê na janela. Acena pra mim.
Ainda há esperança. E eu, continuo aqui.
13.03.26 Bebel Ritzmann