O excesso de olhos
12/03/2026 às 12:31
Nos tempos de identidade digital, leitura facial, robótica, bitcoin e, para completar, inteligência artificial, talvez seja mais prudente ficar em casa. Não como quem foge, mas como quem observa. A casa, afinal, sempre foi o último território do corpo, esse lugar onde a gente ainda tira o nome, a senha e a pose.
Antes de sentar, porém, há pequenos rituais. Tampar as câmeras do celular. Emudecer a Alexa, que tudo escuta com paciência. Desligar os eletrônicos da parede, como quem puxa o fio de um pensamento insistente. Não é medo. É cansaço. O cansaço de ser visto o tempo todo.
Vivemos sob a delicadeza dos sistemas inteligentes, que aprendem nossos hábitos como quem aprende um vício alheio. Sabem a hora em que acordamos, o trajeto mais comum, a música que consola, a palavra que procuramos quando ninguém mais escuta. A tecnologia chama isso de personalização. O corpo chama de invasão lenta.
Hoje, até o rosto virou senha. Sorri-se para abrir portas, franzem-se sobrancelhas para confirmar identidade. O espelho, que antes devolvia dúvidas, agora autentica certezas. Não somos mais apenas quem somos; somos também o que o algoritmo reconhece.
Qualquer fala captada pode ser arquivada. Qualquer imagem, replicada. O tempo digital não passa, acumula. Não envelhece, registra. Amanhã, um gesto banal pode ganhar outro nome. Um silêncio, outra culpa. Uma frase dita sem intenção pode ser usada com intenção demais.
Há quem diga que nada disso importa para quem não deve. Mas o problema não é dever. É existir. Existir sem legenda, sem prova, sem histórico. Existir sem a obrigação de performar lucidez, coerência e felicidade vinte e quatro horas por dia.
Talvez por isso dormir tenha se tornado um ato de resistência. Dormir é desaparecer por algumas horas. É sair do ar sem aviso prévio. É desligar a máquina mais antiga que temos: a consciência vigilante. No sono, não há curtidas, não há reconhecimento facial, não há armazenamento em nuvem. Há apenas o corpo, vulnerável e anônimo.
Proteja-se do excesso de olhos. Do ruído constante. Da necessidade de explicar cada passo.
Feche a porta. Apague as luzes. Desligue tudo o que insiste em saber demais.
E, se puder, durma.
 
Bebel Ritzmann 5.2.26
 
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