Tecnologia como ponte entre justiça social e ação climática 
07/03/2026 às 00:31
Crédito: Rodolfo Rizzo
André Lauz*  

Justiça social e ação climática ainda costumam ser tratadas como agendas separadas. Enquanto políticas ambientais focam emissões, eficiência e recursos naturais, iniciativas sociais lidam com renda, acesso e inclusão. No ambiente corporativo, essa fragmentação se reflete em práticas de ESG muitas vezes subjetivas, pouco padronizadas e difíceis de mensurar. 

Para muitas organizações, ESG ainda é um território nebuloso. Existe a pressão por agir, mas falta clareza sobre o que medir, como medir e como transformar impacto em decisões concretas. Sem dados confiáveis, relatórios viram narrativas frágeis e boas intenções não se traduzem em mudança real. 

A tecnologia pode ser a ponte entre justiça social e ação climática, mas apenas quando é desenhada com responsabilidade. Sistemas mal concebidos amplificam ruído, criam métricas vazias e reforçam desigualdades. Já soluções baseadas em inovação responsável (Responsible Innovation), inteligência artificial confiável (Trustworthy AI) e princípios de ética de dados ajudam a transformar impacto socioambiental em informação confiável, comparável e acionável. 

Ao longo da minha trajetória profissional nos setores de tecnologia e ESG, percebi que o maior desafio não está apenas em coletar dados, mas em estruturar as perguntas certas. Impacto é complexo por natureza e não cabe em modelos genéricos. Por isso, decisões de arquitetura tecnológica são, também, decisões éticas: o que medir, como organizar dados e como evitar interpretações enviesadas. 

Ao desenvolver plataformas de mensuração de impacto, o ideal é adotar uma abordagem fluida, com módulos ambientais e sociais ajustáveis à realidade de cada projeto. Cada pergunta precisa carregar referências automáticas a frameworks como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o GRI, ajudando organizações a entender não apenas o que estão medindo, mas por que isso importa. Essa estrutura reduz ambiguidades, padroniza a coleta de dados e torna o ESG mais objetivo. 

Em 2025, uma empresa do setor automotivo utilizou a tecnologia da Paresi, startup especializada em organização de dados e mensuração de impacto, para estruturar e monitorar um projeto social na comunidade onde atua. A iniciativa ofereceu oficinas de educação ambiental, empregabilidade e empreendedorismo, com capacitação e mentorias conduzidas por colaboradores voluntários. A plataforma foi usada para organizar as informações, alinhar as ações aos ODS e acompanhar os resultados, assegurando transparência, efetividade e impacto mensurável do investimento social, que foi concluído com a formatura de 15 novos empreendedores. 

Para uma das principais empresas de saneamento do país, a tecnologia foi usada para estruturar uma metodologia aplicada a consórcios de obras, permitindo registrar e monitorar mais de 180 tipos de dados ambientais e sociais. A plataforma viabilizou a validação de indicadores como gestão de resíduos, qualidade da água, emissão de ruídos e inclusão social, garantindo maior controle, conformidade e transparência nas obras de universalização do saneamento.  

Quando impacto se torna mensurável, ele deixa de ser discurso e passa a orientar decisões. Dados consistentes permitem comparar iniciativas, acompanhar avanços em tempo real e comunicar resultados com transparência. 

ESG não é um relatório anual, mas um sistema vivo. Se quisermos conectar justiça social e ação climática de forma efetiva, a tecnologia precisa atuar como infraestrutura ética confiável, transparente e desenhada para servir pessoas e o planeta. Neste cenário, inovação responsável deixa de ser diferencial e passa a ser requisito. 

*André Lauz é CTO e co-founder da Paresi.
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