Das piores experiências da vida civilizada
02/03/2026 às 05:30
Foto de Melissa Askew na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost
Não é a tragédia em si. Mas é tão desagradável quanto derrubar o celular no vaso sanitário ou mandar mensagem para a pessoa errada quando, altas horas, a gente está rolando a tela e pescando a cabeça de sono ao mesmo tempo. 

Sem dúvida está na categoria de certas humilhações. A cidade inteira vira testemunha silenciosa do nosso fracasso como bípedes atentos. O curioso é que a coisa nunca está ali de maneira ostensiva. Não se apresenta. Não vem com faixa zebrada, sirene, nem com plaquinha dizendo “cuidado”. O troço se disfarça. Confunde-se com a calçada, assume tons outonais, faz cosplay de folha seca. Quando percebemos, fomos promovidos a carimbadores involuntários de calçadas.

O momento exato do infortúnio é sutil. Primeiro, a leve resistência sob o sapato. Depois, a sensação pastosa que vai subindo pela espinha. E o cérebro em negação: “é barro, deve ser barro, Deus queira que seja barro.” 

Mas o olfato, implacável, assume a investigação. E o veredito vem feito um direto, um gancho, um cruzado acertando em cheio no no nariz.

Excetuando o que nessa vida é fatal — que, convenhamos, temos a delicadeza de não desejar a ninguém (muito menos a nós mesmos) —, pisar em cocô de cachorro é uma das piores experiências do mundo civilizado.

Segue-se o ritual. A dança constrangida na beira da calçada, esfregando o pé com desespero e a dignidade possível restante no meio-fio, nos pequenos canteiros de grama. 

Você olha em volta, entre não ser flagrado na situação infame e identificar o responsável. Todo passeador das redondezas é suspeito. O cachorro, claro, não pode assumir a responsabilidade sozinho. Acabamos por inocente-lo enquanto filosofamos: por que comigo? Logo hoje, que acabo de estrear o tênis novo. Será que existe uma força cósmica que distribui cocôs estrategicamente nos caminhos dos que vivem no modo “distraídos venceremos”? É um se liga, um acorda, mané! 

Fazer o quê? É assim: a gente tem a benção tantas vezes de sermos poupados de grandes tragédias, mas quando achamos  que até que estamos administrando bem nossa rotina, vem a realidade suja vida e se coloca no nosso caminho.
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