
Foto de mdreza jalali na Unsplash
João Alfredo Lopes Nyegray*
O momento atual entre Estados Unidos e Irã não é apenas mais um capítulo da longa tensão no Oriente Médio. É um teste estrutural da lógica de poder que organiza o sistema internacional contemporâneo. O que está em jogo não é somente o enriquecimento de urânio, tampouco apenas o programa de mísseis balísticos iraniano. O que está em disputa é credibilidade estratégica — e, quando credibilidade entra no centro da equação, a racionalidade tende a se tornar mais rígida e menos flexível.
A combinação de ultimatos públicos, prazos explícitos e mobilização militar acelerada compõe um clássico manual de diplomacia coercitiva. Washington sinaliza que deseja um acordo, mas estabelece condições que sabe serem politicamente difíceis para Teerã aceitar, como o abandono completo do enriquecimento. Ao fazer isso, transforma a negociação em uma contagem regressiva. Não é mais apenas uma discussão técnica; é um teste de vontade.
Historicamente, a coerção funciona quando o adversário acredita que o custo de resistir supera o custo de ceder. Mas, no caso iraniano, a equação é mais complexa. O enriquecimento nuclear não é apenas uma ferramenta energética ou estratégica; é um símbolo de soberania e resistência. Para o regime, abrir mão integralmente desse instrumento sob ameaça militar pode ser percebido internamente como capitulação existencial. E regimes que se percebem ameaçados em sua própria sobrevivência tendem a se tornar mais intransigentes, não menos.
Do lado americano, o dilema também é real. Se a Casa Branca constrói publicamente a narrativa de que “coisas ruins acontecerão” caso o acordo não seja fechado, o custo político de não agir aumenta. A retórica cria uma armadilha de credibilidade: se o ataque não vem, a ameaça perde valor; se o ataque vem, o conflito pode se expandir além do controle inicial.
Há ainda um ponto fundamental que raramente é enfrentado com a profundidade necessária: qual é o objetivo final? Destruir instalações nucleares é uma meta operacional. Eliminar lideranças ou enfraquecer o regime é uma meta política de outra natureza. Confundir essas duas dimensões é perigoso. Uma operação limitada pode ser vendida como “cirúrgica”. Já uma estratégia de mudança de regime abre um campo de incerteza que nem mesmo autoridades americanas parecem compreender plenamente. Quem assumiria o poder em Teerã? A Guarda Revolucionária? Uma coalizão fragmentada? Um vácuo de poder?
Guerras raramente começam porque são desejadas como fim em si mesmas. Elas começam quando as alternativas se estreitam. E o que vemos hoje é o estreitamento da zona de compromisso. A exigência de “enriquecimento zero”, combinada com prazo público e mobilização militar, reduz o espaço para soluções intermediárias — aquelas que tecnicamente poderiam satisfazer interesses de não proliferação, mas que politicamente parecem insuficientes para quem já elevou o discurso ao máximo.
Do ponto de vista regional, a situação é ainda mais delicada. Israel enxerga uma janela estratégica: o Irã está sob pressão interna e sofreu ataques anteriores. Os Estados do Golfo, por outro lado, temem o efeito dominó de retaliações, especialmente no Estreito de Ormuz. Uma guerra não precisaria fechar a rota para causar impacto global; bastaria torná-la imprevisível e cara. E, em geopolítica energética, imprevisibilidade já é suficiente para alterar preços, alianças e decisões de investimento.
Há também a dimensão doméstica americana. Uma operação militar sem autorização explícita do Congresso tensiona o equilíbrio institucional. Ao mesmo tempo, buscar autorização amplia o debate público e pode fragilizar a aura de decisão rápida que a Casa Branca deseja projetar. Esse conflito entre cálculo estratégico e cálculo político interno adiciona volatilidade ao processo decisório.
Mas talvez o elemento mais estrutural seja outro: cada vez que a força é usada como instrumento primário de negociação, as normas internacionais perdem densidade. Não desaparecem, mas tornam-se mais maleáveis. Outros atores observam. E, em um mundo já marcado por disputas revisionistas, a percepção de que grandes potências operam no limite das regras contribui para um ambiente mais permissivo ao uso da força.
Nada disso significa que a guerra seja inevitável. Ao contrário, a própria montagem de poder militar pode ser precisamente o que mantém a diplomacia viva — ao elevar o custo de fracasso. A questão central é saber se ainda existe uma zona de acordo politicamente vendável para ambos os lados. Se essa zona existir, veremos um acordo duro, imperfeito, mas funcional. Se ela tiver sido eliminada pela lógica do ultimato, o risco de escalada aumenta de maneira significativa.
No fim, o impasse entre EUA e Irã é menos sobre tecnologia nuclear e mais sobre arquitetura de poder. É um confronto entre dissuasão e legitimidade, entre coerção e sobrevivência. E, como tantas vezes na história, o perigo não reside apenas na intenção declarada, mas na convergência de pressões que tornam o recuo mais custoso do que o avanço.
Em geopolítica, o problema nunca é apenas o primeiro movimento. É o segundo. E ninguém, hoje, parece plenamente seguro de como seria o segundo movimento após o primeiro disparo.
*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray