
Foto: guaratuba.portaldacidade.com/noticias
por Luiz Felipe Leprevost
Que fim ó Cara levaram os ambulantes da areia a venderem coxinha, empadinha, barquilha, sorvete da Kibon, refrigerante, Mate Leão, água mineral na praia central, passando pelos veranistas untados de Sundown?
O que deu do trio elétrico do Justus, do Bailinho do Iate Clube, dos foliões escondendo tubinhos de lança perfume, vestindo calça fusô e sunga por cima, colares e brincos emprestados das avós, com tênis surrados nos pés, batom borrado na boca, lágrimas provocadas por confetes e serpentinas batendo nos olhos?
Nunca mais as pererecas invadindo as varandas em dias de chuva, a chuva, teu chove-chuva, as brigas dos (pejorativamente) chamados nativos com os veranistas (pejorativamente) chamados playboys, e as (pejorativamente) chamadas caiçarinhas em pretensas performances carnavalescas ao estilo carioca. Para quê? Para quem? Não me diga que para esses caubóis do asfalto com o porta-malas berrando sucessos de Tik Tok. Melhor fosse para o bêbado do bundalelê que ameaça se jogar do ferry boat (que fim o ferry boat?).
Ai daqueles três adolescentes cruzando a praia na direção das pedras indo fumar escondidos e é provável que as pedras estejam demasiado quente e é um risco que um deles caia no mar e quase se afogue (ufa, foi por pouco).
A impressão que dá é que a ninguém toca o Morro do Cristo, cotovelo vesgo a latejar esvaziado de orações, enquanto as donas de casa preparam o peixe quando é sexta-feira e a criançada tomou banho às oito da noite, passou perfume, calçou Havaianas e ficou enfiando as unhas nas feridas das picadas de mosquitos à espera do pai que subiu para Curitiba trabalhar e logo volta para o fim de semana.
Guaratu, Guaratubinha, Guaratubabau, Novíssima Terra Brasilis onde um vanguardíssimo Cabral desembarca a cada ano ao lado de Bandeirantes de agora e se apieda com a boca no riacho dos esgotos dos rotavírus que acometem aqueles que não te assumem como paraíso. Assim como os meninos trágicos do teu passado, vítimas consumidas por seitas que te botaram nas páginas policias e anos depois nos podcasts true crimes. Sem contar o prédio desabado sobre a areia fina que o vento sul levou para todo o sempre.
Para a frustração dos surfistas, as tuas ondas se recusam a ficar em pé. Para a saudade dos teus boêmios clássicos, Tio Miro não teve mais tempo de cantar o vanerão nas caranguejadas dançantes. E lá se foi a memória do temido presidente Stroessner, mais teu que do Paraguai. Lá se foram sem adeus os travestis do salão de beleza central. Os guris de camiseta preta sem uma ficha sequer para os fliperamas ao redor da pracinha. E as famílias ao redor das pizzas do Tia Geni, enchendo as garrafas de água contaminada na Bica da Santa. E as correntes perigosas da Praia dos Pescadores agora sob a grande sombra da Ponte, com a tua baía infestada de jet skis.
Guaratuba é lá de longe Renato Marques mexendo o gelo no copo de uísque com sua pinta de personagem do Martin Scorsese dando um até breve para meu pai.