
Reza a lenda que, há muitos anos, numa praia do Paraná, um homem audacioso chamado Percival sumiu no mar, encantado por uma sereia. É assim que contam.
Percival era pescador, desses que não desistem nunca. Vivia sempre alerta, na busca do maior peixe. Conhecido por toda a comunidade, era solteiro, sistemático, gentil, um homem sem mistério, diziam.
Morava num casebre à beira-mar desde a morte da mãe, levada por um câncer terrível. Durante o tratamento, Percival teve de vender o barco. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Nem o mar.
Passou a fazer plantões num trapiche recém-feito, que servia tanto ao turismo quanto para conter o avanço do mar naquela praia. Chegava cedo, antes mesmo do sol, e só saía de lá quando avistava grandes cardumes ou quando já era hora de voltar para casa, dormir e cuidar do fiel cachorro Pescoço.
Nas tardes de terça-feira, todos se reuniam na associação de pescadores. Era sagrado. Ali, contavam seus causos.
Mas o que Percival mais gostava era quando Serafim começava a falar das sereias.
Serafim, velho pescador, além de contar seus causos, interpretava. E os olhos de Percival pareciam saltar da cara queimada, rachada de sol.
Serafim ficou doente e acabou internado num hospital. Numa terça-feira, os amigos resolveram ir visitá-lo.
Lá chegando, Serafim dirigiu-se a Percival e contou o causo que nunca contara. Disse que o canto da sereia é tão intenso que nenhum homem é capaz de rejeitá-lo. E que é preciso muito cuidado com o chamado delas.
Percival nem piscava. Não sabia se acreditava ou se era apenas mais uma história de um velho à beira da morte. Ainda assim, voltou para casa naquele dia muito preocupado.
No dia seguinte, ao chegar ao trapiche, Percival estava diferente. Já não parecia procurar cardumes, mas os mistérios que o mar pudesse lhe trazer.
Chegou ainda escuro, como fazia desde sempre. Sentou-se na beira das pedras, deixando os pés soltos sobre a água fria, e ali permaneceu. O tempo passava devagar. Nenhuma rede foi lançada, nenhum anzol, nenhum puçá, nenhum gesto de pesca aconteceu. O mar seguia calmo, atento, como se esperasse alguma atitude de Percival.
Quando o sol apareceu por inteiro, Percival continuava no mesmo lugar. Não voltou para casa, não chamou por Pescoço, não deu falta de nada. Quem passou pela praia naquela manhã disse que ele parecia escutar, com o corpo inteiro voltado para o horizonte.
Alguns dizem que foi ali, naquela espera silenciosa, que Percival aprendeu a escutar. E, Serafim morreu naquele dia.
Bebel Ritzmann