Orwell: 2+2=5 ou o Grande Irmão vive
11/02/2026 às 14:55
Drones afundam mais um barco no Caribe, terroristas do Hamas são mortos, imigrantes ilegais são presos e outros deportados, frio pode matar milhares de ucranianos, escândalo na corte britânica. O noticiário, com essa narrativa amena diante da cuel crueldade, é ainda menos impactante entremeado com previsão do tempo, programação de fim de semana ou com a fofoca do dia.  Mas diante do documentário Orwell: 2+2+5, sem nada para distrair nem mídia parcial, a realidade estremece coração e mente, sem dó nem piedade.
Estreante no Brasil nesta quinta-feira, o filme tem assinatura de Raoul Peck, ex-ministro da Cultura do Haiti, onde nasceu em 1953. Sabendo ser ele, além de cineasta, documentarista e ativista político, é de se esperar um enredo contundente e real, já demonstrado na série Exterminar Todos os Brutos e no aclamado filme Eu Não Sou Seu Negro, indicado ao Oscar em 2016.
Orwell: 2+2+5 recorre à ficção, ao reportar imagens de filmes produzidos a partir das páginas de livro 1984,  sobre uma sociedade imaginária que submetia seus semelhantes em censura permanente, sem liberdade e nenhuma garantia de direitos. Mas Peck vai além: exibe imagens e personagens reais do século XXI (Donald Trump e Benjamin Netanyahu entre eles), demostrando que a distopia descrita há 80 anos é real e visível.
Não é um filme fácil de acompanhar e pelo contexto já se percebe razão. Mas, ainda que complexo, monocórdio, é de visão obrigatória por uma consciência mundial contra ditadores e projetos de ditadores.
A biografia de Orwell (Eric Arthur Blair, vivido no filme na voz do ator Damian Lewis), não faltando a tuberculose que o afligiu, aventada até nos bacilos que dançam na tela ainda no início do filme, é entremeada com sua obra literária e cenas de opressão, sofrimento, torturas do infeliz cotidiano de nossa história.
O eixo central do roteiro é a manipulação da verdade pelos governos totalitários. Quando Orwell escreve “guerra é paz”, Peck exibe Netanyahu defendendo a necessidade de guerrear para pacificar. É a manipulação da verdade na gramática da tirania. Enfim, o documentário faz a soma certa. Cinco é só para quem acha que a terra é plana. E fica o alerta, a advertência: Big Brother, mano, é vigilância de uma política autoritária, do drone ao celular. É totalitarismo a céu aberto, tão visível que nem a mídia consegue disfarçar por completo. Enfim, quem poderia imaginar, na Lestásia de hoje o idioma oficial é inglês. 
 
Sinopse: Com narração de Damian Lewis (Era Uma Vez em... Hollywood e Fackham Hall) como Orwell, o documentário investiga a vida, a obra e a influência duradoura do escritor George Orwell (1984 e A Revolução dos Bichos), conectando suas ideias, particularmente as lições de seu romance "1984" (lançado em 1949), ao mundo contemporâneo e falando de assuntos como manipulação da verdade, controle da linguagem e negação da realidade imposta pelo poder. O título "2+2=5", em sua obra, é aceitar a mentira como verdade, um dos pilares do totalitarismo.
Produção EUA-França|2025 | 119 min. 14 anos
Título Original: Orwell: 2+2=5
Direção e roteiro: Raoul Peck
Elenco: Damian Lewis, George Orwell, U Win Khine
 
P.S: Orwell: 2+2+5 integrou a Seleção Oficial Festival de Cannes, foi  indicado a mais de trinta prêmios, incluindo sete nomeações ao Critics Choice Documentary Awards.  Com distribuição no Brasil da Alpha Filmes, estará nesta semana nem cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Maceió, Aracaju, Poços de Caldas e Londrina.
 
 
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