
Foto de Andrei Ionov na Unsplash
João Alfredo Lopes Nyegray*
Há momentos na política internacional em que a mudança não se anuncia por tratados assinados ou declarações solenes, mas pelo colapso silencioso das estruturas que mantinham o sistema minimamente previsível. A não renovação do New START é um desses marcos. Pela primeira vez desde o auge da Guerra Fria, o mundo entra em um período sem qualquer mecanismo robusto de governança das armas nucleares estratégicas entre as maiores potências do planeta. Não se trata de um detalhe técnico da diplomacia armamentista; trata-se de um sintoma profundo de uma transição de ordem – e, possivelmente, da tentativa de imposição de uma nova.
O New START não era um tratado idealista. Ele não prometia desarmamento total nem eliminava a lógica da dissuasão. Seu mérito era outro: administrar a rivalidade. Ao impor limites verificáveis, inspeções, trocas de dados e previsibilidade mínima entre Estados Unidos e Rússia, o acordo reduzia o risco mais perigoso da política nuclear – o erro de cálculo. Mesmo enfraquecido nos últimos anos, o tratado funcionava como o último “freio institucional” de um sistema construído ao longo de décadas para impedir que a competição estratégica descambasse para o caos.
A sua expiração não decorre de um mal-entendido diplomático, mas de uma mudança deliberada de postura. Do lado norte-americano, especialmente sob a liderança de Donald Trump, consolidou-se a leitura de que o mundo deixou de ser bipolar e que acordos desenhados para um eixo Washington-Moscou não respondem mais à realidade de um sistema tripolar, no qual a China emerge como potência nuclear em rápida expansão. Renovar o New START sem incluir Pequim passou a ser visto não como prudência estratégica, mas como autolimitação em um jogo no qual um terceiro ator cresce sem constrangimentos equivalentes.
Para a Rússia, a lógica foi distinta, mas convergente. Moscou deixou de enxergar o controle de armas como pilar autônomo de estabilidade e passou a tratá-lo como moeda de barganha política em um ambiente de confronto mais amplo com o Ocidente. Limitar seu principal ativo estratégico – o arsenal nuclear – sem contrapartidas geopolíticas relevantes tornou-se, do ponto de vista do Kremlin, um mau negócio. O resultado dessa dupla recusa foi a morte silenciosa do último tratado que ainda estruturava a dissuasão estratégica global.
Esse vazio institucional ocorre em paralelo a algo ainda mais preocupante: a tentativa explícita de redefinir o princípio organizador da ordem internacional. A política externa americana recente, marcada por desprezo a alianças tradicionais, relativização do direito internacional e disposição de tratar territórios e zonas de influência como ativos negociáveis, aponta para uma lógica de poder mais crua, transacional e hierárquica. A retórica sobre a Groenlândia, ainda que extrema, não é um desvio: é a manifestação simbólica de um mundo em que a força volta a ser apresentada como critério legítimo de ordenamento.
O problema é que a arquitetura nuclear não tolera improvisações. A dissuasão funciona quando combinada a previsibilidade, comunicação e limites claros. Ao remover os mecanismos de verificação e transparência, as grandes potências empurram seus planejadores militares para o pior cenário possível. Cada lado passa a assumir que o outro pode expandir arsenais, alterar doutrinas e reduzir tempos de resposta. Em um ambiente já pressionado por mísseis hipersônicos, sistemas antimísseis e automação crescente do comando e controle, essa incerteza não estabiliza – ela acelera.
Mais grave ainda é o efeito sistêmico. Se as duas maiores potências nucleares do mundo se recusam a aceitar limites, o argumento normativo do regime de não proliferação perde força. Países que abriram mão da bomba sob a promessa implícita de que ela se tornaria progressivamente irrelevante passam a questionar a racionalidade dessa renúncia. O debate nuclear retorna à Europa, ganha força no Leste Asiático e se normaliza no Oriente Médio. Não porque esses países desejem a guerra, mas porque a confiança no sistema evaporou.
Estamos, portanto, diante de algo diferente de uma simples “nova Guerra Fria”. O que emerge é um sistema mais fragmentado, menos regulado e mais dependente da racionalidade perfeita de líderes, instituições e, cada vez mais, algoritmos. A ausência de governança nuclear não significa apenas mais ogivas; significa mais pontos de falha, mais incentivos à antecipação e menos espaço para contenção diplomática em momentos de crise.
A ironia histórica é cruel. A ordem nuclear construída após 1945, com todos os seus defeitos, foi liderada pelo mesmo país que agora contribui decisivamente para sua erosão. Ao abandonar tratados sem substituí-los por arranjos minimamente funcionais, os Estados Unidos não estão apenas reagindo a um mundo em mudança – estão acelerando essa mudança em direção a um cenário mais instável e perigoso.
O mundo entra, assim, em uma zona inédita desde a Guerra Fria: uma era sem freios claros, sem árbitros confiáveis e sem consenso mínimo sobre limites. A tentativa de impor uma nova ordem global pela força e pela coerção pode até oferecer ganhos táticos no curto prazo, mas cobra um preço estratégico elevado: um sistema internacional em que o impensável volta a ser possível. E, no domínio nuclear, essa é uma aposta que a história já mostrou ser excessivamente arriscada.
*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray