Castelo de areia
29/01/2026 às 09:56
Praia, cobertura do décimo segundo andar, piscina e muito espumante. Pessoas elegantes brotavam por todos os lados, exibindo marcas famosas como quem ostenta medalhas invisíveis: pulseiras de ouro, anéis de brilhante, sapatos de grife, perfumes que anunciavam presença antes mesmo do corpo. Tudo reluzia: o chão, os vidros, os sorrisos.
Não sei ao certo como, nem por quê, mas fui convidada a participar de uma festa dessas. Logo na chegada percebi que não era exatamente o meu lugar. Havia ali uma coreografia que eu desconhecia: o modo de segurar a taça, o tempo certo do riso, o tom de voz calculadamente informal. Ainda assim, observei. Percebi que aquele não era apenas um encontro social. Ali circulavam negócios de milhões, selados entre goles e cumprimentos.
De ouvidos atentos, escutei uma conversa aqui, outra ali. Falava-se de expansão, de crescimento acelerado, de projetos audaciosos. Tudo parecia urgente e promissor. Números surgiam no ar como fogos de artifício, estourando, grandes, luminosos, impossíveis de tocar. Ninguém falava de perdas. O risco era sempre elegante, quase conceitual, como se não tivesse consequências fora daquela cobertura.
Caminhei devagar, observando os gestos. As mãos eram inquietas: ora seguravam taças, ora desenhavam gráficos invisíveis, linhas ascendentes, setas sempre apontando para cima. A piscina refletia luz demais. O espumante, servido sem pausa, perdia o gás com rapidez. Havia algo de efêmero em tudo aquilo, embora ninguém parecesse notar.
A certa altura, apoiei-me no vidro e olhei para baixo. A praia estava lá, distante, quase simbólica. Pensei nos castelos de areia que se constroem à beira-mar, com baldes improvisados e muita confiança. Crescem rápido, ganham torres, muros, detalhes. De longe, parecem sólidos. Mas basta o avanço silencioso da água para que tudo se desfaça, sem resistência, sem drama.
Voltei para dentro. A música subia um pouco mais. As risadas também, exageradamente escandalosas. Alguém comentou sobre um investimento “infalível”.  Outro respondeu com entusiasmo. Pareciam viciados em vantagens. Falavam sobre carreiras, muitas carreiras. As ideias se acumulavam como camadas, uma sobre a outra, sem que se percebesse o chão que as sustentava.
Em um momento quase banal, um copo escorregou de uma mão suada e se espatifou no piso de Carrara branco. O som seco interrompeu a conversa por segundos. Silêncio breve. Alguém fez uma piada. Outro levantou a taça para um brinde improvisado. O ruído foi rapidamente varrido para debaixo do tapete árabe da festa. Nada podia quebrar ali. Nem o vidro, muito menos a ilusão.
Observei então que tudo naquela cobertura crescia sem base. A altura dava a sensação de segurança. O luxo criava a impressão de permanência. Mas não havia chão, apenas camadas sobrepostas de promessas, discursos e brindes vazios. Um castelo cuidadosamente moldado, exposto à primeira maré menos previsível.
Fiquei mais um pouco. O suficiente para confirmar o que já intuía. Depois desci antes do fim. No elevador, o silêncio era outro. Sem música, sem riso ensaiado. Ao sair, senti o peso do próprio corpo nos pés. O chão era firme. Imperfeito, talvez, mas real.
Caminhei alguns passos e, pela primeira vez naquela noite, pensei que certas construções só se sustentam enquanto ninguém pergunta de onde vem a areia.
 
Bebel Ritzmann
 
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