2026 não será mais um ano, será um ponto de inflexão
29/12/2025 às 17:17
Foto de Greg Rosenke na Unsplash
João Alfredo Lopes Nyegray*
Há anos repetimos que o mundo passa por uma transição sistêmica. Em 2026, essa transição deixa de ser um processo difuso e passa a se materializar em decisões concretas, conflitos delimitados e escolhas estratégicas com efeitos duradouros sobre comércio, tecnologia, segurança e desenvolvimento. Não será apenas mais um ano turbulento; será um ponto de inflexão.
A lógica que organizou a globalização nas últimas décadas – cadeias longas, interdependência assimétrica e primazia da eficiência econômica – está sendo substituída por outra, muito mais política: segurança nacional, soberania tecnológica e controle de riscos estratégicos. Esse novo mundo é menos previsível, mais fragmentado e, sobretudo, mais caro.
A rivalidade entre Estados Unidos e China ilustra com clareza essa mudança. O confronto deixou de ser essencialmente comercial e migrou para o núcleo duro da tecnologia. Semicondutores avançados, inteligência artificial, computação quântica e biotecnologia passaram a ser tratados como ativos estratégicos, quase militares. Sob Donald Trump, Washington tende a intensificar tarifas, controles de exportação e pressões geopolíticas sobre Taiwan, enquanto Pequim acelera seu projeto de autossuficiência tecnológica, o chamado Chip 2030. O resultado não é apenas uma disputa entre duas potências, mas a ruptura gradual das cadeias globais de valor, com aumento de custos, duplicação de investimentos e a formação de blocos tecnológicos concorrentes.
No front da segurança internacional, a guerra na Ucrânia entra em uma fase delicada. A Rússia busca consolidar territórios ocupados, enquanto a Europa enfrenta um visível cansaço estratégico diante dos custos econômicos, energéticos e políticos do conflito. Os Estados Unidos, por sua vez, dão sinais de redução do apoio financeiro e de pressão por algum tipo de acomodação negociada. O risco aqui não é apenas militar: a instabilidade prolongada afeta preços de energia, segurança alimentar e a própria coesão da OTAN, com reflexos diretos sobre a economia europeia e os mercados globais.
Ainda mais sensível é o Mar do Sul da China, hoje a zona marítima mais militarizada do planeta. Confrontos recorrentes entre China e Filipinas, a expansão de bases militares e a imposição informal de zonas de exclusão aérea colocam sob risco um corredor por onde transita cerca de 40% do comércio global. Qualquer escalada nesse teatro não teria impactos regionais, mas sistêmicos, atingindo desde o petróleo do Oriente Médio até os eletrônicos asiáticos que abastecem o Ocidente.
Paralelamente, o Sul Global busca reorganizar seu espaço de poder. O BRICS entra em 2026 em uma fase de expansão acelerada, tanto em número de membros quanto em ambição. A ampliação do uso de moedas locais, o avanço do BRICS Pay e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento indicam uma tentativa clara de reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar. Não se trata de substituir a ordem vigente no curto prazo, mas de criar alternativas funcionais, capazes de alterar gradualmente o equilíbrio financeiro internacional.
A tecnologia digital será outro grande campo de disputa. A implementação do AI Act pela União Europeia estabelece o mais rígido marco regulatório de inteligência artificial do mundo, enquanto Estados Unidos e China competem pelo controle de chips avançados, algoritmos e dados. A soberania digital passa a ser uma preocupação central de governos, afetando diretamente o mercado de trabalho, o ecossistema de startups e o fluxo internacional de informações. Em 2026, não se discutirá apenas inovação, mas quem define os padrões globais da economia digital.
Na África, a combinação de instabilidade política no Sahel, avanço de grupos extremistas e competição externa por influência redefine o tabuleiro geopolítico do continente. Rússia, China e Turquia ampliam sua presença militar e econômica, enquanto a França perde espaço em áreas onde historicamente exercia influência. Ao mesmo tempo, países africanos tornam-se peças-chave na disputa por minerais estratégicos – cobalto, grafite, nióbio e terras raras – essenciais para a transição energética. O continente deixa de ser periferia e passa a ocupar o centro da geopolítica dos recursos.
A crise climática, por sua vez, deixa definitivamente de ser uma pauta ambiental para se consolidar como um fator econômico e geopolítico. Eventos extremos intensificam disputas por água e alimentos, pressionam cadeias logísticas e forçam governos e empresas a acelerar a transição energética.
Nesse contexto, a corrida global pelo lítio simboliza a nova geoeconomia. Elevado ao status de “novo petróleo”, o mineral está no centro da disputa por baterias, mobilidade elétrica e armazenamento de energia. Austrália, Chile, Argentina e China competem pela liderança, enquanto Europa e Estados Unidos tentam reduzir a dependência do refino chinês. O Brasil, com reservas promissoras em Minas Gerais, entra nesse mapa com potencial estratégico relevante – desde que consiga transformar recursos naturais em política industrial consistente.
O que une todos esses vetores é uma constatação incômoda: o mundo de 2026 será menos integrado, mais competitivo e estruturalmente instável. Para países, empresas e indivíduos, a adaptação não será opcional. Estratégia, diversificação de riscos e leitura geopolítica deixarão de ser diferenciais para se tornarem pré-requisitos. O mundo mudou. Em 2026, não estaremos apenas reagindo a crises, mas escolhendo os caminhos que moldarão as próximas décadas. Quem entender isso antes, terá vantagem. Quem ignorar, pagará o preço.
*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray
 
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