Pedro Bond Schwartsburd (Prof. Dr. Pedro Bond Schwartsburd, Universidade Federal de Viçosa) &
Danilo Richartz Benke (Fundador da Erva Mate Paraná, Membro da Diretoria do SINDIMATE e ACP)
O gênero
Ilex, descrito por Lineu em 1753, pertence à família botânica Aquifoliaceae, e é o único gênero classificado dentro desta família. Ele apresenta cerca de 500 espécies no Mundo, distribuídas praticamente em todos os continentes, exceto em regiões extremamente geladas ou desérticas. No Brasil, são atualmente reconhecidas 56 espécies de
Ilex, das quais 35 são restritas a nosso país. A grande maioria das espécies de
Ilex ainda não têm utilidades econômicas diretas, mas são importantes componentes ecológicos da nossa Flora.
Por outro lado, algumas espécies de
Ilex apresentam, sim, utilidades diretas para nós. Por exemplo, o azevinho (
Ilex aquifolium), originário da Ásia e Europa, e o ílex-chinês (
Ilex cornuta) são cultivados como plantas ornamentais. Em algumas localidades do Mundo, espécies de
Ilex são usadas como remédio naturais ou fitoterápicos, indicados como estimulantes cardíacos e para o tratamento de tosses, problemas digestivos, retenção de líquido, icterícia, reumatismo, etc. Em épocas pré-Colombianas, a combinação de espécies de
Ilex num chá era utilizada em rituais de purificação, por tribos ou civilizações indígenas da América do Sul.
Porém, quem nos chama mais a atenção é obviamente
Ilex paraguariensis, a erva-mate. Que além de ser usada para fins medicinais, é uma bebida estimulante altamente apreciada no Sul do Brasil e regiões adjacentes, como no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, seja como o chimarrão, como o tererê, chá mate torrado, mate gelado, ou como componente de refrigerantes, cervejas e drinks alcoólicos. Mas… você sabia que nem sempre a erva-mate foi chamada de
Ilex paraguariensis?
Ao longo do século 19 vários nomes científicos foram aplicados à planta da erva-mate, como
Ilex bonplandiana, Ilex cognata, Ilex curitibensis, Ilex domestica, Ilex mate, Ilex sorbilis, Ilex vestita, além de diferentes grafias de “
paraguariensis”, como
Ilex paraguaiensis, Ilex paraguensis e
Ilex paraguayensis. Porém, por mais que alguns destes nomes sejam mais tentadores a ser usados, ou que até mesmo não reflitam a incongruência geográfica da espécie (apesar de se chamar “
paraguariensis”, ela é também nativa do Brasil e Argentina), o Código Internacional de Nomenclatura Botânica estabelece regras claras sobre a utilização de nomes científicos: 1. cada espécie de planta só pode ter um único nome científico correto, e 2. o nome que foi publicado anteriomente tem prioridade. No caso da erva-mate, o nome científico prioritário, que deve ser usado, é
Ilex paraguariensis, publicado em 1822 pelo naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, como resultados de suas viagens pelo Brasil, Paraguai e Uruguai. Todos os outros nomes científicos da erva-mate foram publicados em anos posteriores, perdendo, portanto, prioridade, e tornando-se obsoletos.
O nome
Ilex brasiliensis, por vezes erroneamente aplicado à erva-mate, é um nome científico válido, sim, porém aplicado a uma outra espécie de
Ilex, que não é utilizada como erva-mate.
Assim, quer queira, quer não, devemos continuar chamando a erva-mate de
Ilex paraguariensis.
Bibliografia para maiores informações:
Flora e Funga do Brasil – Aquifoliaceae. Disponível em:
http://servicos.jbrj.gov.br/flora/search/Aquifoliaceae
Global Biodiversity Information Facility (GBIF). Disponível em:
https://www.gbif.org/
International Plant Names Index (IPNI). Disponível em:
https://www.ipni.org/
Loesener, T. 1901. Monographia Aquifoliacearum, pars I. Nova Acta Acad. Caes. Leop.-Carol. German. Nat. Cur. 78: 1–598. Disponível em:
https://www.biodiversitylibrary.org/page/12818505#page/1/mode/1up
RxList – Holly. Disponível em:
https://www.rxlist.com/holly/supplements.htm
Souza, V.C. & Lorenzi, H. 2012. Botânica Sistemática. Instituto Plantarum, 3a ed.
Turland, N.J. et al. 2018. Código Internacional de Nomenclatura para Algas, Fungos e Plantas (versão em Português). Regnum Vegetabile 159. Disponível em:
https://www.iaptglobal.org/_files/ugd/12c57a_0d03b3f645d5489f93ab1f311bba62c5.pdf