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por Luiz Felipe Leprevost
Escrevo esta crônica como quem ajeita o lençol antes de você deitar: com a delicadeza do cuidado e a precisão da mania. Sim, porque você tem algumas pequenas manias que me alfabetizam. Isso, para que você também possa me ler — justo eu, que nunca fui livro de cabeceira de ninguém, virei seu exemplar mais sublinhado, mais amassado, mais bonito de tão usado.
E se me confidencio nesta crônica, é porque só se confessa o que, como diz a canção de Chico César, “dói de bom, arde de doce, queima, acalma.” Por isso escrevo para você.
Escrevo para você porque você não é a buerista, nem a forasteira de lugar nenhum. Você é o endereço. Ainda assim, embora já tenhamos vivido um continente inteiro, precisamos brincar daquela ideia do começo do namoro, de interpretar o papel de desconhecidos que se cruzam na livraria da Travessa de Ipanema e flertam — você mira meus olhos e encontra o próprio retrato no álbum de família.
Porque é assim que começa e recomeça: com a surpresa de não termos imaginado. Imaginar é turismo. Porque é assim que continua e recontinua: estar é também resistência, além de residência. E quando você está, o meu coração faz um batuque tímido — tac tac tum — dentro da caixa torácica.
Escrevo esta crônica como reza de proteção, porque você dirige por esta cidade perigosa com nossos filhos no carro. E é preciso sempre nos cuidarmos e cuidarmos deles.
Escrevo para dizer que devemos seguir acesos. Eu sou um poste antigo que vela o sono dos amores que adormecem nessa cama king size (nós e as três crianças, os lençóis do meu lado sempre saem do lugar) — nós cuidamos, elas sabem que somos para lâmpadas acesas em suas madrugadas.
Faço esta crônica para ver o seu rosto se abrir num sorriso, desses que iluminam os olhos. Mas, se as sombras vierem e você chorar por razões que eu nem suspeito, basta recitar qualquer pedaço deste texto — algumas crônicas são feiticeiras, voltam para pegar sua mão.
Escrevo para dizer que estou aqui. E aí. Para você. Estamos colados um no outro que nem esparadrapo teimoso, daqueles que não saem nem com banho.