
Com treze narrativas, chega às livraria Quando o Coração Sangra, da piracicabana Eliete de Fátima Guarnieri, escritora e, desde 2007, juíza titular da 3ª Vara da Comarca de Santa Bárbara d’Oeste. Editado pela Casa de Astérion, o livro encerra a Trilogia dos Quando, formada por Quando o Estômago Grita e Quando a Alma Viaja. São obras independentes, mas que se complementam, por abordar “ sentimentos que espelham a nossa humanidade”.
Enfim, são “julgamento” de três dimensões do humano: a física, a espiritual e a emocional, simbolizadas pelo estômago, pela alma e pelo coração.
Em Quando o Coração Sangra, diz a autora, os treze contos e mincontos “são histórias de melancolia, psicopatia, fobia, desesperança, vício, imprudência, distúrbio, desejo, decepção, tragédia, frustração, punição e perdição. Histórias sem redenção”.
Os contos

Pelas 84 páginas desfilam as seguintes narrativas: Quando o Coração Sangra, em tom autobiográfico, aborda a depressão que suprime o prazer dos atos que sempre foram motivos de alegria, mas é a mesma que lhe impulsiona a escrever. No segundo conto, intitulado Profano, o ódio é o personagem. O ódio que se mistura à indignação e ao júbilo de ser um “exemplo profano em tempos não sagrados”.
Aroma de Alecrim traz um encontro inusitado do medo e a segurança. O desespero em busca da paz derradeira é o tema de Requiem. Em Satiríase, desfilam rancor, raiva, impotência diante do cinismo e do desprezo podem levar a atos violentos. Manhã de novembro versa sobre a esperança e sonhos aniquilados. Com tinta mordaz, Efeito Sanfona é sobre uma mulher compulsiva mas desejosa, a todo custo, em emagrecer. Já Desejo é um violento relato da volúpia sexual.
Dezesseis Anos traz uma aspirante a escritora tecer uma intrincada rede de sonhos. Na chuva estão as mazelas das grandes cidades e contradições de seus habitantes “Ter e Ser, por sua vez, é a história de uma mulher conquistou sucesso e dinheiro em um mundo de luxo, soberba e vingança. No Presídio”, o 12º conto, o luxo dá lugar à violência e à indigência. E termina com Heresia, uma irônica abordagem do desejo sexual e a morte.
A autora
Integrante da Academia Piracicabana de Letras, Eliete Guarnieri é, filha de um torneiro mecânico e de uma pespontadeira. Eles não tinham o hábito de leitura e nem havia muitos livros em sua casa. Estudou em escolas públicas e diplomou-se em Direito pela USP.
Aos 9 anos, Eliete passou a ter aulas de piano clássico com a filha do chefe de seu pai. Para praticar em casa, alugava o instrumento da vizinha. Quando seu pai abriu uma empresa e a situação financeira da família melhorou, Eliete passou a estudar em um conservatório e a ter seu próprio piano para treinar. Aos 18 anos, formou-se como música técnica.
Na adolescência, frequentando a Biblioteca Pública de Piracicaba, conheceu Machado de Assis. “Aos 16 anos, eu já tinha lido quase toda a sua obra”, lembra. Influenciada pela literatura, ela passou a escrever e fez uma oficina literária com o imortal Ignácio de Loyola Brandão, chegando a participar de uma coletânea de contos elaborada por ele, chamada Mistérios do Engenho. Foi com o escritor que burilou o seu estilo, que se notabiliza pelo caráter enxuto. “Ele me orientou a cortar tudo que era supérfluo no meu texto”, diz.
Fez vestibular para jornalismo (porta de entrada frustrada de muitos romancistas, percebeu). Ao fim, a futura juíza foi aprovada na Universidade de São Paulo (USP). “Eu acabei encontrando no direito o que procurava no jornalismo: uma formação humanística caracterizada pelo estudo de matérias como sociologia, filosofia e história. Foi um curso que permitiu também que eu lesse bastante”, conta.
Embora relutasse em seguir a magistratura, acreditando que a função do juiz era “muito passiva”, ela prestou concurso para juíza de direito. E conclui^: “Não me arrependo da escolha que fiz, porque hoje eu sei que o juiz é passivo até o momento de ser provocado. Após isso, ele é quem dá todo o impulso para o processo”.
Durante a pandemia de Covid-19, Eliete passou a frequentar, de modo online, um clube de leitura da Associação Paulista de Magistrados e, paulatinamente, voltou a escrever. Pelo clube, travou contato com o escritor e poeta Mafra Carbonieri, que a estimulou a editar seus contos.
Foi eleita para a Academia Piracicabana de Letras, tomando posse na cadeira número 22 em agosto de 2024. Atualmente, divide-se entre a escrita e atuação como juíza de direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
Link Amazon:
https://www.amazon.com.br/Quando-Cora%C3%A7%C3%A3o-Sangra-Casa-Asterion/dp/6598540879