João Alfredo Lopes Nyegray*
Kamili Fracaro**
As imagens captadas por satélite — manchas de sangue saturando o solo do deserto, aglomerados de corpos em ruas inteiras, filas de civis fugindo sob disparos — chocaram parte da comunidade internacional após o ataque à cidade de El-Fasher, no Sudão, em 26 de outubro de 2025. A ofensiva, conduzida pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), resultou, segundo estimativas, na morte de 460 civis dentro de um hospital que servia de abrigo humanitário, além de aproximadamente três mil pessoas assassinadas em toda a cidade. O episódio apenas intensificou o terror em uma região marcada por décadas de violência e reforçou o rótulo de “guerra esquecida” atribuído a um conflito que não começou em 2025 — e tampouco terminará tão cedo.
A crise atual é fruto de uma longa trajetória de guerras, autoritarismo e fragmentação estatal. Desde que conquistou sua independência do domínio britânico em 1956, o Sudão foi governado majoritariamente por regimes militares rígidos. Omar al-Bashir, o líder que permaneceu mais tempo no poder, assumiu o governo em 1989 por meio de um golpe e manteve um regime de repressão brutal até ser deposto em 2019. Durante seu governo, Bashir foi responsável por crimes de guerra e crimes contra a humanidade — pelos quais há um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Foi também sob sua autoridade que nasceu a milícia Janjaweed, criada como força de contrainsurgência, mas que se tornaria, anos depois, o motor do genocídio em Darfur.
No meio dessa turbulência, o país dividiu-se: em 2011, após décadas de tensões étnicas e religiosas — o Norte majoritariamente árabe e muçulmano, o Sul predominantemente negro africano e cristão — o Sudão do Sul conquistou sua independência. Entretanto, a cisão não trouxe estabilidade. Ao contrário: abriu novas tensões internas, redesenhou equilíbrios de poder e deixou feridas que reverberam até hoje.
A milícia Janjaweed, criada por Bashir, foi gradualmente reestruturada e transformada nas Forças de Apoio Rápido (RSF), comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemedti. Paradoxalmente, essa mesma força que durante anos servira ao regime foi determinante para a queda do ditador em 2019. Após sua deposição, formou-se um governo provisório com promessa de transição democrática — promessa que durou pouco. Em 2021, um novo golpe militar destruiu a tentativa de estabilização e colocou o país nas mãos de uma junta liderada por dois generais: Hemedti, das RSF, e Abdel Fattah al-Burhan, comandante das Forças Armadas Sudanesas (SAF). A aliança não durou. Em abril de 2023, divergências sobre poder, comando militar e o futuro do país eclodiram em uma luta aberta entre ambos. A partir daí, multiplicaram-se os ataques, os crimes de guerra, as execuções em massa e a limpeza étnica.
Hoje, a população sudanesa enfrenta a maior crise humanitária e de deslocamento do mundo. Desde 2023, a escalada da violência desalojou pelo menos 12 milhões de pessoas, das quais entre 3 e 3,8 milhões foram forçadas a deixar o país. Metade da população sudanesa vive em insegurança alimentar aguda — e a fome é usada deliberadamente como arma de guerra. As estimativas de mortes variam amplamente, mas autoridades falam em até 150 mil pessoas assassinadas apenas desde o início das hostilidades entre SAF e RSF. A violência sexual tornou-se sistemática: a UNICEF relata que, entre crianças sobreviventes de estupro, 66% são meninas. Ao mesmo tempo, entre 70% e 80% dos postos de saúde das áreas mais afetadas já não funcionam.
Enquanto isso o mundo assiste, mas assiste pouco. E aqui entra uma reflexão essencial da antropóloga Judith Butler, para quem o luto não é apenas uma experiência humana, mas também um ato político. Segundo Butler, algumas vidas são publicamente reconhecidas como dignas de luto, enquanto outras permanecem invisíveis — vidas que podem ser perdidas sem comoção, sem manchetes, sem pressão internacional. O que ocorre no Sudão é exatamente isso: um luto seletivo global. O sofrimento sudanês não mobiliza governos, não provoca grandes campanhas, não organiza cúpulas extraordinárias, não gera correntes de solidariedade mundial. De certa forma, o genocídio em Darfur — ontem, hoje e amanhã — parece ocorrer em um espaço moral onde a humanidade não se vê obrigada a intervir.
Essa seletividade se explicita diante da assimetria brutal entre a escala da tragédia e a reação internacional. As atrocidades são documentadas em tempo real por satélites, drones, ONGs, jornalistas e sobreviventes. Os indícios de limpeza étnica são inequívocos. A fome é deliberadamente induzida. Há execuções filmadas. Há corpos espalhados pelas ruas. Há mulheres violentadas como método de dominação. E ainda assim, o máximo que parte da comunidade internacional oferece são declarações de repúdio, doações pontuais e conferências diplomáticas que terminam sem medidas coercitivas.
Porque agir no Sudão significa enfrentar atores poderosos, como os Emirados Árabes Unidos, que supostamente financiam e armam a RSF enquanto mantêm relações estratégicas estreitas com Estados Unidos, Reino Unido e Europa. Significa rever a hipocrisia de um sistema internacional que se diz baseado em “direitos humanos”, mas que relativiza a defesa desses direitos quando os interesses econômicos — ouro, portos, rotas do Mar Vermelho — entram no jogo. Significa admitir que a ONU perdeu capacidade prática de proteger civis mesmo quando o genocídio ocorre diante de todos.
A pergunta incômoda, portanto, não é por que El-Fasher caiu, mas por que deixamos que caísse. Por que aceitamos, de forma quase burocrática, a repetição da violência que marcou Darfur há vinte anos? Por que naturalizamos a morte sudanesa como se fosse inevitável, distante, abstrata? Talvez porque, como argumenta Butler, fomos educados a reconhecer plenamente algumas vidas — europeias, ocidentais, brancas — enquanto outras permanecem na penumbra da nossa imaginação moral.
Mas El-Fasher exige que confrontemos essa indiferença. Exige que abandonemos o hábito confortável de lamentar tragédias apenas onde o luto é socialmente autorizado. Exige que reconheçamos que há um genocídio em curso — e que a omissão internacional não é neutra: ela é, em si mesma, uma forma de cumplicidade. Não há solução simples para a guerra no Sudão. Mas há algo simples a dizer: não podemos mais fingir que não vimos. Não podemos alegar ignorância. As imagens de satélite não nos permitem essa desculpa. A fome deliberada não nos permite essa desculpa. O terror em El-Fasher não nos permite essa desculpa.
Se o mundo mantiver o silêncio, então a pergunta mais perturbadora deixará de ser “por que ninguém fez nada?” e passará a ser: por que achamos que as vidas sudanesas valiam tão pouco? E talvez não haja acusação mais devastadora à nossa consciência coletiva.
*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Geopolítica, Negócios Internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUCPR; professor de Relações Internacionais e Direito Internacional da FAE Business School. Instagram: @janyegray
**Kamili Fracaro é estudante dos cursos de Direito e Relações Internacionais da FAE Business School.