Entre abóboras e pinheirinhos: os labirintos das vitrines sazonais
30/10/2025 às 17:49
* Achiles Batista Ferreira Junior
Ao caminhar pelas ruas de Curitiba em pleno mês de outubro, é impossível não notar uma cena curiosa e, para muitos, até contraditória, afinal é possível em uma mesma vitrine identificar abóboras sorridentes que dividem espaço com bolas de Natal vermelhas e douradas. Uma mistura de Bruxas, grinchs e renas, fantasmas e bons velhinhos, todos juntos em uma espécie de carnaval comercial que antecipa o espírito natalino, antes mesmo do Dia das Bruxas terminar, evento com origem nos Estados Unidos e que conquistou terras tupiniquins, já há algum tempo. E essa mistura não é exclusividade da capital paranaense, afinal em diversas cidades do Brasil e do mundo, o varejo parece ter apertado o botão de “adiantar tudo”, criando uma espécie de calendário comercial paralelo.
Mas afinal, essa antecipação é uma jogada estratégica ou um tiro no pé? Do ponto de vista do marketing, antecipar campanhas sazonais pode ser uma excelente forma de esticar o ciclo de consumo, aumentar o tempo de exposição dos produtos e, claro, garantir que o cliente pense na sua marca antes da concorrência. É como plantar sementes antes da estação e nessa, nem sempre quem chega primeiro, colhe mais. Além disso, existe outro lado, uma vez que com o avanço da digitalização e da automação, muitas empresas conseguem programar ações com antecedência, aproveitando datas próximas para criar campanhas híbridas, que misturam temas e ampliam o alcance.
É importante pensar sobre existir um risco evidente, que é a saturação e a confusão do consumidor, já que quando tudo acontece ao mesmo tempo, perde-se o senso de urgência, o encantamento da data e, principalmente, a clareza na decisão de compra. O cliente entra na loja para buscar uma fantasia de Halloween e se depara com panetones e luzes piscando e isso pode gerar desconexão, dispersão e até rejeição. Afinal, o consumo também (mais do que você imagina) é movido por emoção, e cada data tem seu próprio clima, sua própria narrativa.
Como professor e pesquisador, vejo nesse fenômeno uma oportunidade de reflexão sobre o papel do marketing na construção de experiências significativas. Afinal antecipar não é acelerar, é preparar com propósito e isso exige sensibilidade, planejamento e respeito ao tempo do consumidor e nesses casos, a pressa pode ser inimiga da conexão.
Imagine que "o marketing não é a arte de encontrar maneiras inteligentes de descarregar o que você produz e sim a arte de criar valor genuíno para o cliente." E nesse sentido, criar valor exige contexto, timing e coerência. Misturar datas pode ser criativo, mas precisa ser estratégico, quase cirúrgico. O que não pode acontecer é transformar o calendário em um liquidificador de campanhas, onde tudo se mistura e nada se destaca.
Portanto, a resposta à pergunta inicial, se essa antecipação é benéfica ou não, vai depender muito da forma como ela é conduzida, afinal se for feita com planejamento, com uma narrativa integrada e foco na experiência do cliente, pode sim gerar bons resultados. Mas se for apenas uma corrida desenfreada por atenção, o efeito pode ser o oposto: menos vendas, mais confusão, muita informação e menor fidelização.
O fato é que o consumidor de hoje não quer apenas comprar, ele quer sentir, viver, fazer parte, interagir e compartilhar. E para isso, cada data precisa ser respeitada em sua essência, porque no final das contas, não é sobre vender mais, é sobre vender melhor.

*Achiles Batista Ferreira Junior , Doutor em Tecnologia e Sociedade, Mestre em Gestão de Negócios. Coordenador dos cursos de Marketing, Marketing Digital e Gestão de Mídias Sociais. Coordenador de Curso de Tecnologia EAD no Centro Universitário Internacional Uninter.
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