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por Sérgio Odilon Javorski Filho
O jogo está perdido. É hora de parar, respirar, avaliar e retornar. Foi assim com o filho pródigo, cuja herança do pai lhe foi adiantada e liquidada com festas e imoralidades. Afundou-se na miséria. Como cuidador, invejou os porcos que podiam comer, arrependeu-se e voltou para casa, pediu para ser servo, foi recebido com abraço e beijo carinhosos do seu genitor. Às vezes, como ensinou José Saramago, "É preciso sair da ilha para enxergar a ilha".
A sociedade encontra-se completamente embebida no materialismo. Foi-se o tempo em que "criança não mentia". Uma geração de jovens sem caráter assumiu o controle dos meios de comunicação virtuais. O estelionato infantil, abrigado e incentivado por genitores cuja índole é ainda pior, consolidou-se como meio de vida. Jovens sem a mínima noção da vida na condução de debates vazios, em busca de engajamento e publicidade, cuja única habilidade é ludibriar e vender a fórmula premiada de empresários mirins bem-sucedidos, capazes de orientar outros jovens a também alcançarem altos voos rumo à independência financeira.
A culpa por este comportamento desviado da moralidade e incompatível com a legalidade – configura exploração infantil, com evidente prejuízo à educação formal e preparação de cidadãos coletivos – alcança e implica quem tem o dever de proteção. Crianças sugadas leviana e inescrupulosamente por pais frustrados.
Meninas e meninos dançam praticamente nus na internet, expõem-se deliberadamente. A família aplaude o pseudo sucesso da criança que se tornará um adulto fracassado, sem opinião, sem cultura, com a mente poluída por ideias individualistas e limitadas. Enquanto o dinheiro entra por um lado, a higidez mental sai pelo outro. Um prato cheio para a criminalidade de segmento. O cafetão conduz o jovem por uma fibra óptica, de longe, e contam com a chancela dos genitores da vítima, cegos pela monetização da sexualidade infantil dos filhos, concebida como meio de transformação da vida econômica.
Enquanto critica-se a criança pobre que vende bala no sinaleiro, os filhos da classe média dançam para câmeras abertas e exibem seus corpos despidos em plataformas criadas para a lasciva satisfação de pedófilos.
Nesta nova Era, a criança inteligente, que vai para a escola, faz a lição de casa, lê livros e estuda para as provas é peça desajustada no tabuleiro social no qual vale tudo pela fama. Jovens são lançados todos os dias no mar aberto da internet, em meio a criaturas sedentas pela inocência infanto-juvenil.
O incentivo vem forte. Por monetização, rebole até o chão. De ato em ato, a riqueza emerge da prostituição do corpo, das ideias, dos princípios, dos valores familiares. Dane-se! O dinheiro cura todas as feridas. O sangue que transbordar é excedente descartável. Perdas aceitáveis em um ambiente de competição, onde o vencedor é necessariamente o mais mentiroso e baixo.
As escolhas desta geração terão suas próprias consequências em um futuro próximo. Afinal, a vida flui como no famoso poema sobre a infância "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles: "Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares. Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro."