Como são escolhidos os nomes dos medicamentos?
Aprovação regulatória pode levar anos e segue normas técnicas para garantir segurança e evitar erros
26/08/2025 às 11:54
Foto: envato ilustrativa
Digeflex, Pratiprazol, Pratiderm... Talvez você nunca tenha usado esses medicamentos, mas só pelos nomes é possível supor suas finalidades. Isso não é por acaso. A nomenclatura costuma estar associada ao princípio ativo, à doença tratada, aos benefícios promovidos ou à combinação desses elementos. Porém, nomear um medicamento não é tarefa simples: trata-se de um processo técnico, demorado e submetido a diversas exigências legais.
De acordo com o gerente de Marketing da Prati-Donaduzzi, Lucas Angnes, a escolha do nome de um medicamento envolve muito mais do que marketing. “Um bom nome deve ser distintivo, seguro, adequado culturalmente e juridicamente viável. O processo pode durar anos e envolver dezenas de especialistas, mas é fundamental para garantir a segurança e a longevidade do produto no mercado”, afirma.
Desde 2014, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão responsável pela aprovação da nomenclatura dos medicamentos no Brasil, passou a adotar critérios mais rígidos. Atualmente, o nome de um novo produto não pode ser semelhante — nem na grafia, nem na sonoridade — aos nomes já existentes. Além disso, a nomenclatura precisa conter, no mínimo, mais de três letras diferentes em relação aos medicamentos já registrados.
Uma das regras técnicas menos conhecidas, mas fundamentais, determina que o nome comercial não pode reproduzir mais de 50% da Denominação Comum Brasileira (DCB) nem mais de 50% do nome do princípio ativo. Isso significa que, no caso da dipirona — que tem sete letras únicas, desconsiderando repetições — o nome de marca não pode conter mais do que três letras desse conjunto. Se um nome contiver “D”, “I”, “R” e “N”, por exemplo, será recusado pela agência.
Segundo especialistas, a norma visa dificultar confusões entre medicamentos e prevenir erros de dispensação e prescrição. A Anvisa também veta nomes que possam induzir à automedicação, prometer cura ou fazer alusão a partes do corpo humano ou doenças, caso não haja respaldo técnico-científico. “Combinações de letras como I e Y, W e V, ou M e N também devem ser evitadas, pois podem confundir na leitura ou escrita da receita”, explica Lucas.

Normas recentes e exceções do passado
Apesar do rigor atual, essas regras são relativamente recentes. Até o início da década de 2010, a Anvisa ainda não adotava critérios tão definidos, o que explica por que muitos medicamentos antigos, ainda em circulação, não respeitam as regras em vigor.
 
Processo criativo e aprovação
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de metade dos nomes sugeridos pelas indústrias farmacêuticas são reprovados. O objetivo é minimizar a chance de erros e aumentar a segurança de médicos, farmacêuticos e pacientes.
 
Atualmente, existem aproximadamente 10 mil medicamentos registrados no Brasil. Só a farmacêutica Prati-Donaduzzi, com pouco mais de 30 anos de atuação, tem mais de 170 produtos em seu portfólio. Em 2025, novos medicamentos da empresa aguardam análise e aprovação de nome pela Anvisa. “Investimos de 5% a 7% da nossa receita líquida em pesquisa e desenvolvimento. Com tantos lançamentos, precisamos de nomes simples, memoráveis e que auxiliem o trabalho médico”, afirma o gerente.
A criação dos nomes começa com um processo colaborativo. Diversos setores da indústria — jurídico, farmacêutico, marketing, inovação — sugerem propostas. As opções são testadas em bases de dados, simuladores fonéticos e plataformas de verificação internacional. O objetivo é evitar duplicidades e significados negativos em outros idiomas ou culturas. “Nomear um medicamento é uma mistura de ciência, criatividade e burocracia. Mas, acima de tudo, é uma responsabilidade com a vida das pessoas”, conclui Lucas. 
 
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