Ricardo Dalbosco é estrategista de marca pessoal, referência nacional e com experiência em projetar marcas pessoais de profissionais de sucesso de quatro continentes, além de marcas corporativas. É escritor Best-Seller, conselheiro de empresas, vencedor de prêmios, além de colunista e consultado por diversas mídias de renome nacional. É formador de LinkedIn Top Voices e Creators no Brasil, trabalhou em diversos lugares pelo mundo e é considerado o profissional de confiança de vários executivos, empresários e board members no país
Confira entrevista exclusiva com Ricardo Dalbosco, palestrante referência em Comunicação e Liderança entre gerações e o Futuro do Trabalho
Por Patrícia Vieira
Atualmente, pelo menos quatro ge rações convivem no mercado de trabalho, são elas, Baby Boomers, X, Y e Z, com valores, cos tumes e comportamentos diferentes, o dia a dia nas empresas está repleto de embates e problemas de comunicação. Para entender melhor este contexto, recebemos para um bate-papo na redação, o especialista Ricardo Dalbosco, palestrante e referência em Comuni cação e Liderança entre gerações e o Futuro do Trabalho. Ele nos ajuda a desmistificar os conflitos no local de trabalho, bem como pensar em possíveis soluções para uma me lhor convivência e mais produtividade no futuro. Confira:
DI&C: Qual o atual contexto do mercado de trabalho se consideramos a convivência entre gerações e como você atua?
Dalbosco: Se a gente falasse que todo mundo está confortável com a questão de gerações no mercado de trabalho estaríamos mentindo. Em 2003 para 2004 começou essa grande virada. Entre 2003 e 2006 quatro das principais redes sociais de hoje em dia vieram ao mundo, Linkedin, Twitter (atual X), Facebook e Youtube. Rede social não é algo de agora, existe há centenas até milhares de anos, um exemplo, o Café das Nações, que é uma idealização do jornal, é uma rede social e continua sendo, o Rotary, a Maçonaria, sua igreja, tudo são redes sociais, o que mudou é que agora as redes sociais são digitais. De 2003 para frente se deu muita informação para quem estava na base da sociedade e na base trabalhista, que era o estagiário, o trainee, os analistas, o começo dessa cadeia hierárquica corporativa e quando damos muita informação para base damos a eles também a capacidade de decisão. Antes era só o topo que tinha conhecimento agora é a base que tem muito conhecimento e isso fez com que muita gente pudesse escolher então quem escutar, não precisa ter apenas as mesmas fontes de conhecimento, passando a decidir com quem quer trabalhar, onde trabalhar, e a própria questão do que é verdade ou mentira. As pessoas passaram não se entender mais dentro da empresa, o própria crença de que o mais velho que sabe tudo e eu só tenho que seguir o que o outro fala começou a ser contestada, principalmente de 2010 para frente. A gente vive essa fase de transição, de embate, as duas pontas um não aceitando muito bem como é o outro, e quem vive muito isso é a geração Z, nascidos entre 1997 a 2010, começando o primeiro período trabalhista. A primeira geração que nasceu no digital, o contato humano é um tanto difícil, a comunicação pessoal é difícil. Por outro lado lá no outro extremo temos Baby Boomers, X e Y que talvez de tanto trabalhar, não viram os últimos 20 e 30 anos passar em termos de tendência, acreditando que o mundo como fomos ensinados seria eterno, mas o mundo mudou. Eu estudo como essas gerações precisam trabalhar em cooperação para que a empresa atinja o objetivo dela, pois se continuar essa guerra de gerações não vai dar certo.
DI&C: Quando falamos de trabalho, qual o objetivo da geração Z?
Dalbosco: Os Baby Boommers e os X vão dizer que a geração Z não quer trabalhar, mas se pensamos bem será que a gente também queria trabalhar ou tínhamos outra opção, se pudéssemos estar agora em Cacum, claro que nós gostaríamos, mas se estamos aqui trabalhando numa segunda-feira é porque não nascemos em berço de ouro. Então vamos tirar essa questão de foco.
O Z ele não quer trabalhar com o mesmo modelo que nós fomos ensinados ou seja aquele regime trabalhista, que desde a revolução industrial, considera o trabalhador apenas uma máquina, como parte de um CNPJ, isso o Z não quer mais, ele vem como um revolucionário em relação ao próprio método de trabalho, mas ele não tem força o suficiente, porque quem continua a decidir sãos os X e os Baby Boomers, são esses que em grande parte tem o poder, cargos de liderança. Nos próximos cinco anos teremos uma massa de geração Y na liderança, que também veio de uma relação de ruptura, mas como os pais foram Baby Boomers e X, ainda existe um certo medo, ainda preza pela segurança no trabalho, não quer ser só mais funcionário público e trabalhar quarenta anos, mas ainda vive muito para o trabalho. Tem medo de algumas quebras. O Z, como veio num mundo um pouco mais leve, com escolhas possibilitadas pelo mundo digital pode não ter que trabalhar braçal, como eu trabalhei no McDonald’s, mas trabalha na internet, pode até receber menos, mas com mais disponibilidade geográfica e de tempo, pode trabalhar e morar onde quiser. O Z quer revolucionar o modelo existente, mas temos de um lado quem tem o poder e do outro quem dita a grande massa de trabalho, atualmente são 20 a 30% de quem trabalha e 10% da população atual no Brasil. E, em cinco anos, passará a 58%, mais da metade dos trabalhadores serão geração Z.
DI&C: Deve haver uma mudança de padrão no mercado de trabalho nos próximos cinco anos?
Dalbosco: Sim. Quem tem o poder vai ter que achar um ponto intermediário, talvez nem tudo como você quer nem tudo como o Z quer, encontrar um meio termo. Vivemos em tempos de polarização. Se no passado era preciso aceitar tudo porque não tínhamos poder, nos últimos anos tudo pode ser questionado. Acredito que a geração que vai pegar uma pouco mais de harmonia, em termos de lazer, saúde mental e prazeres da vida é a geração Alfa, que vem depois da Z. A Z está querendo a mudança como o X quis, eles criticam o Z, mas esquecem que foram a geração do paz e amor e rock’roll, do começo de uma revolução cultural e hoje o Z também quer fazer a sua revolução, mas chega um momento que vai ver que não é possível, como não foi lá trás.
DI&C: Como a geração Z se comporta no processo de sucessão das empresas familiares?
Dalbosco: Existe uma parcela de Z que foi criada por pais que passaram muita dificuldade, filhos principalmente de Baby Boomers e X, e muitos pais X não querem que os filhos passem as mesmas dificuldades que eles tiveram, educando muitas vezes com base em valores até distorcidos. Então temos uma geração com muitos herdeiros, mas não sucessores, isso acontece não só no Brasil, é uma realidade atual. Uma expressão internacional que ficou conhecida é
quiet ambition (ambição silenciosa), um percentual significativo da geração Z não apenas não quer assumir a empresa dos pais, mas não quer cargos de liderança, prefere viver com menos e mais qualidade de vida. E, até mesmo o significado de qualidade de vida mudou, no passado era ter o carrão para mostrar para ao vizinho, a casa para mostrar para vizinho, muita garagem, muros transparentes, hoje o Z pode até morar num barraco, não precisa mais receber aquela visita chata que chegava no domingo, a qualidade de vida do passado era muito para o outros, ou aos 60 anos vou me aposentar e comprar uma casa na praia, o Z não quer trabalhar quarenta anos, 80 mil horas, para depois aproveitar os últimos anos. Aí vem uma outra tendência da geração Z, a chamada
microaposentadoria, o Z não vê a empresa como sinônimo da vida, mas sim como intercambio, ele quer aprender, mas quer ter experiências distintas e tirar microaposentadorias durante a vida, trabalha por um ano e meio e depois pega o dinheiro e vai fazer uma viagem, curte por seis meses e depois repete o processo. Eles preferem que a vida seja fragmentada em termos de prazeres, do que aproveitar após quarenta anos, até porque de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a expectativa de vida nas próximas décadas é que o volume de trabalho passe de quarenta para sessenta anos, ficará cada vez mais difícil se aposentar.
DI&C: Com a tecnologia as pessoas passaram a ter que estar sempre disponíveis para o trabalho?
Dalbosco: O que aumentou foi a disputa das empresas por atenção, fazendo com que a atenção, seja no B2B ou B2C também virasse um produto. O grande desafio das empresas para os próximos anos é transformar atenção em memorização, porque atenção, o
like, não é mais a grande dificuldade e sim se manter na mente e no bolso do seu público alvo, virar top of mind. Eu penso naquele assunto e lembro da empresa X. Como a indústria passa cada vez mais a atingir o cliente final, através do e-commerce, começa a prestar atenção em comportamentos, como no caso do Z, sustentabilidade e praticidade, então marcas que focarem nisso saíram na frente, pois não adianta um produto ultra sustentável, mas que leva seis meses para chegar na casa do Z, muitas vezes a bandeira da sustentabilidade é vencia pelo preço e agilidade. As gerações precisam entender que o que aprendemos nos trouxe até aqui, mas que agir do mesmo modo não vai nos levar para um futuro sustentável, algo é preciso mudar, mas ninguém tem a fórmula para isso. É preciso fazer ensaios, testes e ir adaptando de acordo com a sua realidade.
DI&C: Qual o papel da inteligência artificial no mercado de trabalho?
Dalbosco: A Inteligência Artificial (IA), hoje em dia já está impactando a vida de todo mundo, mesmo de quem não percebe, que vai ser uma ferramenta básica todo mundo sabe, mas tem uma questão muito peculiar, o diferencial daqui para frente vai ser a humanização, quando todo mundo fica igual, se diferencia quem não parece tão artificial. A geração beta, nascidos a partir de janeiro de 2025, é a primeira que nasce num ambiente totalmente de IA, o Beta vai começar a ser educado junto com a IA, ele vai questionar o próprio modelo de ensino, vai questionar os próprios líderes, quando a gente era garoto não questionávamos, pois o que tínhamos de informação era a Barsa, o Almanaque Abril, não tinha muito onde consultar, consultava os mais velhos e se eles não sabiam ou estavam inventando, acreditávamos como verdades absolutas, hoje não, um aluno na hora tem a resposta se aquilo está certo ou não. Nós seja no B2B, B2C, indústria, comércio, precisamos ser cada vez mais questionadores, levarmos provocações, reflexões para os funcionários, do que ter apenas respostas. Estimular com perguntas em reuniões: “Por que vocês acreditam no que está acontecendo?”, “Será que existe alguma forma diferente de como a gente faz para como a gente pode fazer?”, “Onde estamos errando?”. Isso deve ser até muito mais produtivo para uma empresa do que apensas apresentar a saída, pois talvez eu não tenha saída, ou a IA vai ter uma saída melhor do que a minha. A diversidade de conhecimento, integração vai mostrar que muitos têm muito valor para dar, seja um X, um Baby Boomer, Z ou Alfa. A multigeracionalidade é fantástica dentro dessa construção, onde cada um pode doar o que tem de melhor e deixar o pior como um processo de autoconhecimento e superação, aprender com o outro, porque o que uma geração tem de melhor muitas vezes é o que a outra tem de pior, quando conseguem esse equilíbrio, essa harmonia, acredito sim que esse é um caminho, como na música para agirmos com maestria é preciso contar com diferentes instrumentos e não só ferramental, IA, mas também humanos, um Boomer, um Z, X, Y, Alfa para tocarmos aquela música que o nosso cliente vai gostar..