Vivienne Westwood, a subversiva da moda

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Nos tempos de urgência climática batendo às portas e desenhando nefastas previsões para os dois próximos decênios, muitos desejam se apropriar do protagonismo do discurso da “moda com propósito”, que atualmente tem muitas madrinhas e padrinhos mas, apenas uma mãe: a inimitável, irreverente e incansável Vivienne Westwood, ou melhor, Lady Vivienne Westwood, alta honraria da Ordem do Império Britânico, que a “Rainha do Punk” recebeu da Rainha Elizabeth II por duas vezes, em 1992 e em 2006.

O Musée de Tissus de Lyon, na França, reabriu as portas ao público no dia 10 de setembro passado com a exposição: “Vivienne Westwood: Art, mode et subversion” para exbir a coleção privada do colecionador inglês e admirador da obra de designer Lee Price, para homenagear aquela que é referência quando o tema é inconformismo e rebeldia e que, aos setenta e nove anos continua mais ativista e influente do que nunca, após cinquenta anos de carreira.

Sempre conectada com o zeitgeist, Westwood e seu então companheiro o também genial Malcolm Mclaren, falecido em 2011, revolucionaram o mundo da moda nos anos 70, ao abrirem sua loja na King´s Road, em Londres, chamada “Let it Rock”, rebatizada de “Too Fast to Live, Too young to Die”, e começaram a criar camisetas com imagens e slogans provocativos como forma de rebelar-se contra a estrutura social de classes britânica, o que os levou a responder a vários processos judiciais sob a legislação “anti obscenidade” britânica (Obscene Publications Act , de 1959). A loja, que ainda mudaria de nome várias vezes, ainda está presente no número 430, com o nome de Worlds End.

Um casal imponderável, pois, Vivienne Westwood ganhava a vida como professora primária e McLaren havia sido expulso de várias escolas de arte até desistir dos estudos em 1971. A loja da dupla na King´s Road inicialmente vendia os antigos LPs de música, objetos vintage e peças de vestuário que ambos criavam em conjunto, pois, não eram adeptos do dominante estilo hippie à época, preferindo a estética rockabilly de Elvis Presley.

Ao resolver investir no showbizz, Malcolm Mclaren foi mentor e empresário de bandas de rock pesado, como The New York Dolls, e a mais famosa e polêmica The Sex Pistols, para a qual Vivienne desenhava as roupas. Foi a partir desse momento que o movimento punk, tanto como estilo quanto fenômeno cultural nascia. Não se tem certeza quem foi o primeiro a usar o termo, cuja tradução refere-se a algo como péssimo, ou bandido, mas, é inconteste que McLaren é o grande organizador do movimento, e a banda, sua epítome.

A partir das criações fetichistas, repletas de peças em vinil, calças jeans rasgadas, couro, correntes, zíperes, alfinetes, botas militares, Vivienne e McLaren criaram os códigos de vestimenta do “punk rock” e os inscreveram no imaginário coletivo, reafirmando mais uma vez a natureza de fenômeno social, econômico, artístico e cultural da moda, capaz de influenciar várias gerações.

Nos anos oitenta, o estilo subversivo e rebelde do punk rock se populariza, vira mainstream e deixa de representar o anti-stablishment e o inconformismo da década de setenta, para se tornar parte da pop culture. É nesse momento que Lady Westwood, sempre uma iconoclasta, já separada de Malcolm Mclaren, e desiludida com os rumos que tomou o movimento, abandona o estilo que a consagrou, não obstante haver sido ela mesma a popularizá-lo.

Por possuir muitas referências adquiridas durante os breves anos em que estudou arte, nos anos oitenta, a designer passa a lançar coleções que se tornaram sucesso na Inglaterra e na França, como Pirates e Time Machine, com muitos elementos históricos da pintura e artes decorativas do século XVIII, inaugurando sua entrada no mundo da alta moda, sendo aclamada novamente pelo establishment contra o qual tanto lutou.

Eu seu atelier na King´s Road, sempre repleto de referências à cultura britânica, objeto central de suas criações, seja em forma de homenagem, seja em forma de paródia, a designer brinca com cânones da aristocracia, como o teatime e se inspira nos tradicionais ternos de Saville Row. E muito antes do gender neutral, Vivienne já colocava tartãs dos kilts dos clãs escoceses na passarela, desenhava saias e vestidos para homens e ternos para mulheres. Uma revolução. Não à toa foi considerada já na década de oitenta um dos seis nomes mais importantes da moda de todos os tempos pela revista Women´s Wear Daily.

E, como o ativismo jamais a abandona, a designer vem utilizando sua passarela para levar a mensagem forte em favor dos direitos humanos, da ecologia, e outros temas relevantes da contemporaneidade, traço peculiar de sua carreira como pioneira do fashion activism.

O tema da ecologia e a ameaça das mudanças climáticas são grande motivação atual de Vivienne, cuja marca há muitos anos luta contra o fast fashion e já incorporou diversos princípios de sustentabilidade em sua produção: técnicas de cortes sem criar resíduos (zero waste), emprega o upcycling e fontes de energia renovável, prioriza materiais orgânicos, baniu o uso de pele e couros exóticos, eliminou o plástico das embalagens e proibiu o poliéster, derivado do petróleo. O cuidado com a cadeia global de suprimentos e a promoção da diversidade e equidade de gênero fazem parte do ethos da marca.

O percurso cronológico e temático ao qual nos convida a bela exposição inaugurada no museu de Lyon pretende ser um mergulho nesse universo tão extraordinário da revolucionária, ícone da subcultura que se tornou um dos nomes mais influentes da história da moda.

Da mesma maneira que Vivienne Westwood, ainda que não intencionalmente, popularizou o movimento punk tornando-o mainstream, oxalá seus esforços em prol da sustentabilidade sigam na mesma necessária direção.

Para saber mais: https://www.museedestissus.fr/pages/exposition/25:vivienne-westwood-art-mode-subversion