Anderson Leal*

Você sente saudade de ser adolescente? Estar naquela fase incrível, em que é preciso definir o que você vai fazer pelo resto da sua vida, antes mesmo de entender completamente a extensão dessas decisões, não é exatamente uma sensação que deixa saudades. Por que, então, os adultos se esquecem tão rápido de como foi difícil passar pela adolescência? Por que, então, seguimos exigindo que nossos jovens estejam 100% maduros e seguros nessa fase da vida?

Antes da pandemia de covid-19, os índices de ansiedade entre crianças e adolescentes eram de 11,6%. Depois dela, subiram para 20,5%, de acordo com uma revisão de pesquisas publicada no Jama Pediatrics. Isso significa que o problema aumentou, mas já existia muito antes do medo do coronavírus e do período de distanciamento social imposto por ele. Deveríamos prestar mais atenção ao sofrimento – muitas vezes silencioso – pelo qual os adolescentes estão passando. E construir com eles uma rede de apoio forte o bastante para minimizar os impactos emocionais de uma época que nunca foi fácil para ninguém.

Atualmente, muitos especialistas afirmam que a adolescência, na verdade, se estende até os 24 anos de idade. É uma fase de mudanças, de viver novas experiências, de experienciar o corpo e os relacionamentos, conhecer a si próprio e encontrar-se nos grupos. Afinal, é na adolescência que deixamos de ter como referência principal nossos familiares próximos e passamos a nos identificar mais com nossos grupos de interesse. Por isso é tão comum ver “tribos” de jovens.

Ao mesmo tempo, é hora de escolher uma profissão e delimitar um plano de ação para a vida adulta. A cobrança da sociedade, nesse sentido, é quase insuportável. Ainda há a mentalidade de que os jovens vão se profissionalizar em uma área e passar o resto da vida nela, como acontecia há 20 anos. No entanto, as carreiras têm se modificado muito e os jovens de hoje poderão ter muitas carreiras diferentes ao longo da vida. Eles não têm maturidade ou mesmo necessidade de se sentir tão pressionados.

Todos nos sentimos mais seguros quando estamos cercados por pessoas que colaboram com o nosso desenvolvimento e torcem pelas nossas vitórias. Não é diferente com os jovens. Uma rede de apoio é um dos principais fatores de proteção contra os inúmeros fatores de risco que eles podem encontrar pelo difícil caminho até a vida adulta. O ideal é que proporcionemos mais fatores de proteção do que de risco.

Nada como poder contar com uma rede macia e confortável no fim de um dia cheio e cansativo. Assim deve ser a rede de apoio que precisamos construir para os adolescentes, principalmente na época do Enem e do vestibular. Essa rede faz com que ele se sinta amparado e sempre tenha onde “descansar”. Uma rede bem estruturada permite que a autoconfiança, a segurança e a autoestima permaneçam intactas, ainda que o momento seja de muitas escolhas fundamentais.

E, assim como faz um artesão habilidoso, quanto mais fios acrescentarmos a essa rede, mais firme e aconchegante ela será. Cada pessoa próxima é um fio indispensável para alcançar esse resultado. Pais, irmãos, professores, familiares com os quais o adolescente tenha um bom relacionamento, amigos, professores, equipe escolar, todos esses devem estar na trama de uma boa rede de apoio. Sempre que possível, podemos adicionar também um profissional da Psicologia.

Por fim, essa rede pode ajudar a montar uma rotina que não seja exaustiva. Ela precisa conter um bom projeto de estudos e prever momentos de lazer. O equilíbrio é o que vai garantir que o jovem possa cumprir com seus compromissos de estudo sem, contudo, prejudicar sua saúde física e mental. O lazer é o momento em que ele vai jogar bola, dormir, frequentar a praia, fazer algo diferente, algo de que ele goste. Também é função da rede dar conselhos, apontar caminhos para que ele se sinta menos ansioso.

Além de ser um espaço de “descanso”, a rede de apoio é importante para o fortalecimento da resiliência. Por isso, ela precisa garantir que o adolescente aprenda a lidar com os eventuais obstáculos que poderá encontrar ao longo da vida. Trata-se, no fundo, de participar da formação de um ser humano. Ser presença, exercitar a escuta ativa, interessar-se pelo dia a dia do jovem e oferecer o ombro para que ele possa respirar fundo antes de ir para o mundo.

*Anderson Leal é consultor pedagógico da Conquista Solução Educacional.