Uma mulher de parar o trânsito

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*por Claudia Queiroz

Fazia tempo que eu não via uma mulher brilhar tanto! Ela atravessava a rua puxando o carrinho de bebê pela frente, com a mão direita, um pacote de bala para vender no sinaleiro, creio eu, na esquerda, enquanto o marido, puxador de carrinho de papelão, seguindo seus passos.

Era uma mulher orgulhosa da própria família. Deslizava como se estivesse desfilando no cruzamento. Aquela alegria era absoluta, porém intrigante pra mim. Como alguém tão simples tinha tanto?

Por um momento pensei em fazer uma conversão proibida para fazer uma entrevista, fotografa-la feito “paparazzi” ou filmar aquela cena… Mas eu estava naquele momento com horário agendado para finalizar o teste de renovação da carteira de habilitação e considerei um tanto antiético escolher uma contravenção.

Guardei na mente aquela imagem. Uma família em construção, com sólidos valores. De dar inveja a qualquer um que passeia de mãos dadas nos shoppings da cidade discutindo banalidades.

Homens rabujemos, mulheres cheias de certezas e crianças mimadas desconhecem a beleza dessas surpresas que a vida traz. O sinal estava fechado para mim, provavelmente para que eu pudesse contemplar algo raro de se ver: pessoas gratas pela vida que têm, conscientes de que o universo conspira pelo bem e adoça o dia de quem sabe o valor de tudo o que é essencial pra ser feliz.

Claudia Queiroz é jornalista.