UM NOVO URBANISMO

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Alexandre Schlegel

A virtude do pensamento prático é traduzida habitualmente como sabedoria prática. As cidades passam a ser policêntricas. Portanto, o crescimento da cidade – tanto espacial quanto demográfico – o aparecimento das deseconomias de aglomeração na área central e a acumulação capitalista são processos fundamentais para a concretização da descentralização.

Reginaldo Luiz Reinert, arquiteto e urbanista, nos aponta que o mundo se debruçava sobre um novo conceito desenvolvido por Arturo Soria, no final do século IXX: a estruturação das funções urbanas a partir não só da rede viária, mas na adoção de um sistema eficiente e prioritário de transporte de massa que organizava a ocupação do solo e expandia as qualidades do centro urbano para bem próximo das áreas rurais. “Ruralizar a cidade e urbanizar o campo”… surgia assim a Cidade Linear, o embrião da descentralização.

Um novo plano – Curitiba, em 1963, adota o conceito de Soria no seu Plano Preliminar, estabelecendo um pacto definitivo entre o transporte público e as funções da cidade. O clássico desenho que renega o modelo tradicional proposto pelo arquiteto francês Alfred Agache e se transforma no cruzamento de dois grandes eixos estruturais traduz a prioridade no caminho do transporte coletivo e determina a hierarquia tanto viária quanto de ocupação      O desenho do plano – De acordo com Reinert, com a criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba – IPPUC, por recomendação do próprio Plano Preliminar, o conceito adotado passa a tomar forma, se adequando às particularidades do local. O boulevard original de Soria torna-se o Trinário – muito mais adequado às dimensões da intenção inicial gerando, não uma “Linha” de ocupação, mas um “Setor Estrutural”. É preciso lembrar que quanto a implantação do plano, a realidade das cidades brasileiras e em especial de Curitiba era outra: uma população em torno de 450.000 habitantes distribuída de forma dispersa e relativamente próxima às antigas rotas de acesso à cidade (os eixos estruturais).

O automóvel, um privilégio das elites; o transporte público incipiente e pontual ligava cada novo loteamento ao centro e se apresentava como a única forma de acesso, principalmente ao trabalho e à escola. Qualquer alternativa não suprida pela linha se resumia em: “vá até o centro e pegue outro ônibus”.

Apesar da total dependência da população pelo transporte público, o “DESENHO DO PLANO” imprime um alto grau de modernidade à provinciana Curitiba. Tudo foi literalmente desenhado: a rua por onde circula o ônibus é exclusiva e vira CANALETA; o ônibus, até então uma carenagem sobre um chassis de caminhão, se transforma no EXPRESSO com um desenho único especial para Curitiba, uma nova cor VERMELHO, um novo layout interno que lhe confere um ar de METRÔ; uma nova estação, o DOMUS e um TERMINAL DE INTEGRAÇÃO no lugar do velho ponto final. A força deste desenho redefine o comportamento da população, altera sua rotina, torna-se um símbolo da modernidade e o retrato mais divulgado da cidade.

Ao definir o comportamento da população, define-se também a estabilidade macroeconômica, que não é algo que uma região possa um dia incorporar definitivamente no seu patrimônio histórico-cultural, na verdade, deve sim ser preservado continuamente. Deve ser tratado como muita segurança como uma condição necessária, sem a estabilidade, o crescimento econômico não se sustenta ao longo do tempo. Sem crescimento, a estabilidade não se consolida. Por isso os pensamentos fragmentados dos gestores produzem a ausência de crescimento socioeconômico na Região Metropolitana de Curitiba – RMC composta por 29 municípios, e mais de 3.5 milhões de habitantes.

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