…Outros diplomatas despencaram para ao aeroporto e se postaram à beira da escada, quando ele desceu do avião…

FLORIANOPOLIS – Em outubro de 1960, chegou a noticia a Lisboa:

– Jânio Quadros, que acabava de se eleger Presidente, dona Eloá e a filha Tutu estariam chegando, dentro de duas horas, ao aeroporto de Portela de Sacavém, disfarçado, na lista de passageiros, sob o nome de José da Silva.

 

O embaixador Negrão de Lima estava no Rio, de férias. O ministro conselheiro, Armando Frazão, nos Estados Unidos, em um encontro sobre café. Outros diplomatas despencaram para ao aeroporto e se postaram à beira da escada, quando ele desceu do avião:

 

– O que os senhores estão fazendo aqui? Se quisesse que me viessem receber, eu os teria avisado de minha chegada. Estou viajando anonimamente, para descansar. E não quero que a imprensa saiba que estou aqui em Lisboa.

 

– Mas já sabem.

 

– Vamos então para um lugar tranqüilo, onde possamos conversar.

 

Foram para a casa do encarregado de negócios do Brasil.

 

JANIO  

Jânio perguntou se havia maneira de impedir que os jornais a as estações de radio revelassem que estava em Lisboa.

 

– Há, Basta acionar a censura.

 

Telefonaram para um conhecido que trabalhava na censura. Ele disse que já sabia pela radio da presença de Jânio e garantiu que, a partir daquele momento, nenhuma noticia mais seria divulgada. Jânio tinha reservado um hotel ao lado do centro boêmio da cidade, o Parque Mayer.

 

Na manhã seguinte, a embaixada recebeu  um telefonema do diretor-adjunto do Diário de Lisboa, dizendo que Jânio havia dado uma entrevista exclusiva que ocupava toda a primeira pagina e mais duas do Diário.A censura havia cortado inteiramente e dizia que só a embaixada podia liberar.

 

E mais. Com um cartão amável, o diretor-adjunto do jornal mandava um editorial duro sobre os falsos democratas, que em voz alta falam em favor das liberdades, mas na surdina recorrem à censura, quando esta lhes serve. E o editorial também tinha sido proibido.

 

CENSURA 

De repente, Jânio apareceu na ante-sala da embaixada. No gabinete do embaixador, Jânio perguntou se o Diário de Lisboa já havia saído. Havia, sim:

 

– Curioso, dei uma longa entrevista a este jornal e não publicaram nada.

 

Contaram-lhe o que se passara. Jânio ficou irado:

 

– São uns estúpidos. Se dei a entrevista, isso significava que a ordem à censura estava desfeita.

 

Explicaram-lhe que haviam pedido que sua presença não fosse noticiada.

 

– Temos de dar a contra-ordem.Telefonem por favor e liberem a noticia.

 

– Perdão, presidente. Mas o senhor deu uma exclusiva para o Diário de Lisboa, que é um jornal vespertino. Se liberarmos agora a noticia, vamos favorecer os matutinos. Sugerimos que a contra-ordem  só seja dada amanhã de manhã e que se informe ao Diário, que continuará a ser o dono do furo.

A CORISTA 

         À noite, Jânio, com dona Eloá e as mulheres dos diplomatas, foram assistir ao show do cassino Estoril. Lá pelas tantas, Jânio pediu licença, levantou-se e sumiu. As horas passavam e ele não voltava. A sala foi-se esvaziando e não sabiam o que dizer a dona Eloá. Jânio apareceu tranqüilo, como se tivesse ido ao banheiro por alguns minutos. Por onde andara, nunca se soube ao certo. Mas correu por Lisboa que havia saído atrás de uma corista.

 

O embaixador Negrão, avisado, chegou no dia seguinte. E convidou o casal para um almoço na embaixada. A conversa com Jânio foi interessantíssima. E os vexames dos dois dias anteriores começaram a parecer irrelevantes, diante do brilho com que ele expunha suas idéias.

NEGRÃO DE LIMA 

Estavam todos s se renderem a seu fascínio, quando o mordomo chegou perto de Negrão. O embaixador foi à sala ao lado e ao regressar disse a Jânio :

 

– Presidente, o doutor Franco Nogueira lhe traz um convite do almirante Americo Tomaz. Ele sabe que o senhor está em viagem estritamente privada, mas o presidente da Republica Portuguesa não pode deixar de homenagear, ainda que em caráter também privado, o presidente eleito do Brasil. Pefe, assim, que o senhor e dona Eloá lhe dêem o prazer de almoçarem amanhã com ele e sua mulher. Só estarão à mesa os dois casais.

 

– Diga que não vou.

DA COSTA E SILVA 

Diante da insistência dos jornais, das rádios e dos correspondentes estrangeiros, Jânio resolvera receber a imprensa na embaixada, para um café da manhã. Negrão mandou preparar tudo. Fizeram todos os convites.

 

De manhã, Jânio deixou Negrão e os jornalistas plantados na embaixada. E só então souberam que Jânio havia embarcado à sorrelfa, às seis e meia da manhã, num navio britânico, e estava a caminho da Inglaterra.

 

(Esta historia, quase ao pé da letra, está em mais um livro magnífico do poeta, ex-embaixador e acadêmico Alberto da Costa e Silva (“Invenção do Desenho – Ficções da Memória”), onde conta memórias de diplomata).