Tudo por um like?

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*por Claudia Queiroz

Eu adoro música e geralmente presto atenção nas letras. Numa das minhas favoritas de Maria Gadu, ela canta “sai de si, vem curar seu mal…” Esta frase vem fazendo eco há alguns anos em minha vida. Como posso enxergar além de mim e dos meus próprios interesses? É possível ser melhor, mais empática, grata, madura e feliz? O que fazer para ampliar a visão, sobretudo conectando meu umbigo ao centro do universo e à mãe natureza?

Um ano limitado e de infinitas descobertas como esse, de pandemia e mudanças no comportamento de todos nós, está chegando ao fim e, como tradição, balanço geral começando. Dia desses assisti um trecho de entrevista onde Ivete Sangalo desabafa para Gilberto Gil que as pessoas estão “ensimesmadas”. Cheias de direitos e verdades, acham que precisam dizer aos outros o que fazer, julgando, perdendo tempo e vida… Concordo com ela. A arte cumpre com a função de plantar sementes em forma de pensamentos.

Percebendo que grande parte das pessoas vem buscando a sobrevivência dos seus negócios nas redes sociais e luta arduamente para conquistar destaque no “status” de influenciadores ou formadores de opinião, alguns excessos e distorções estão sendo multiplicados…

As portas do estrelato foram escancaradas a todos e, ao menos na minha opinião, o grande perigo dos excessos do “TUDO POR UM LIKE” está na distorção do senso de realidade. Enquanto uns dedicam horas infindáveis para salvar o mundo de sofrimentos e angústias, outros se habituam a fomentar inseguranças e discórdias… Parece que o preço para participar de tudo isso é uma intimação questionando, o tempo inteiro, de qual lado você quer estar. Só que nesta queda de braço, todos querem a mesma coisa: audiência. (Se fosse um programa de TV, diria que se assemelha ao “Tudo por Dinheiro”, do Silvio Santos, que se diverte jogando aviões de 100 reais).

Não sou contra postagens, coisa que todos fazemos, e sim a fazer disso a razão da própria existência, alimentando um mundo paralelo que embaralha percepções a respeito de si e do que acontece no entorno. Afinal, na falta de vida social, a virtual supre (?). Com ausência de rotina, uma construção de persona (como quero ser visto pelos outros) devolve parte da sensação de bem-estar que evaporou durante a pandemia?

Produção em série de personalidades narcisistas estão sendo lapidadas em larga escala. Às vezes com a justificativa heroica de batalhar por uma causa, noutras por pura vaidade ou reconhecimento financeiro. Este é um alerta. Lembrando que o narcisista é aquele que se olha no espelho achando que ninguém é mais belo ou melhor que ele. Porém, segundo especialistas, vai muito além disso. Esta faceta esconde baixa autoestima e um “falso selfie” de alguém que sente dor em ser quem é e que precisa representar pra ser aceito.

Vale à pena passar uma vida interpretando um papel? Dependendo da opinião do público? O que estamos entregando para o mundo se continuarmos presos ao próprio umbigo?

Num ano de máscaras que estão nos despindo lentamente na essência, explodem facetas íntimas pra todos os lados. Não tivemos formaturas, festas ou grandes celebrações de casamento e demais acontecimentos que nos enchem de orgulho. Estamos encerrando um ano de reflexões e penitências. 20 flexões, 20 abdominais, 20 minutos de meditação, 20 segundos sem respirar pra testar os pulmões e nos assegurar que não estamos com COVID e tantas outras coisas x20…

2020, um ano pra repetir exercícios mentais, emocionais, relacionais, está marcando história. As folhas do calendário serão trocadas e nada vai acontecer instantaneamente. Nem vacina nem a “fada azul do Pinochio”, remédio ou injeção para apagar ilusões de que estamos na reta de chegada. Este é só mais um processo lento de transformação humana, como tantos outros já enfrentados por nossos antepassados.

Valores, hábitos e comportamentos levam tempo até se consolidar. A única coisa instantânea que pode acontecer no saldo da sobrevivência a tudo isso é nos propormos a ser mais do que queremos parecer. Porque todo incômodo vai passar. E como você quer estar, só depende das suas próprias raízes.

Claudia Queiroz é jornalista.