Teremos sequelas na nossa saúde bucal no PÓS-COVID?

313

Por Ronaldo Hirata

Odontólogo formado pela UFPR. Cursou mestrado em Materiais Dentários pela PUC-RS, Doutorado em Dentística Restauradora pela UERJ e Pós-doutorado em Biomateriais pela NYU.

Hoje atua como Professor do Departamento de Biomateriais e Cariologia da New York University (NYU); New York, USA e tem sua clínica privada ainda em Curitiba/PR.

A pandemia do COVID iniciada em 2020 trará alguns reflexos também na saúde bucal da população, e não somente dos infectados pela doença. E não se engane, os sinais já podem ser percebidos nos consultórios odontológicos. Já se foi um ano, e ainda engatinhamos, na solução deste problema.

No início desta pandemia, em março do ano passado, a recomendação de algumas entidades de saúde, como a ADA (American Dental Association), havia sido para que pacientes evitassem as consultas odontológicas (Brian and Weintraub 2020), dado a característica de infecção por gotículas respiratórias. Isso foi revisto em Abril, para consultas somente emergenciais. Todas estas manobras reprimiram inicialmente os tratamentos que eram necessários e foram adiados. Nossos consultórios foram fechados, e voltamos a atender teoricamente “em normalidade” novamente por volta de maio. Um ano após o início da pandemia, muitos pacientes ainda preferem aguardar o seu fim para decidir iniciar o tratamento dental, o que tem sido tarde demais e, em muitos dos casos, com problemas bucais que vem sendo agudizados pela demora de solução. Um exemplo? Tratamentos gengivais relacionados à doença periodontal, que necessitam um controle constante realizado pelo profissional, antes que perda óssea e, muitas vezes, dentais sejam inevitáveis. Pacientes tem perdido dentes pela falta de tratamento enquanto aguardam o fim da pandemia. Minha recomendação? Não espere para realizar o que você sabe que necessita ser resolvido, ou pode ser tarde demais.

O “COVID stress syndrome” ou “Síndrome do Stress do COVID” demonstrou 5 sinais claros e observados em vários níveis por todos nós (se não em nós mesmos, em pessoas que conhecemos), como: a) excesso de preocupação com a contaminação e do perigo da doença (pessoas passando álcool em compras de supermercado???), b) preocupação excessiva com o impacto sócio econômico, c) xenofobia quanto a estrangeiros espalhando a doença (vide ataques raciais a orientais ocorrendo nos Estados Unidos), d) estresse traumático com pesadelos e pensamentos constantes sobre a doença causando problemas no sono, e) checagem e testagem compulsiva (Taylor et al. 2020). Este mesmo estudo apontou ainda que 16% dos pesquisados já se encontravam no quadro mais severo necessitando apoio de saúde mental. Minha recomendação? Procure ajuda e não tenha receio ou vergonha de buscar este auxílio psicológico.

Em situações de ansiedade e stress sabemos que a condição de saúde bucal é deteriorada (Ferreira 2020), e esse estresse se reflete em alguns sintomas bucais como: diminuição da salivação, o que causa um hálito mais desagradável e uma tendência ao acúmulo de placa bacteriana, que causará mais cáries e gengivite. Um segundo reflexo clínico do estresse é o aumento da inflamação gengival causada pela piora da higiene bucal, e, eventualmente, o aumento de hábitos nocivos como cigarros. Aftas pela baixa da imunidade do paciente também são comuns e você mesmo já deve se lembrar de ter tido isso em situações como provas importantes, entrevistas de trabalho, etc. Minha recomendação? Tente manter rotinas de higiene bucal, e não deixe de realizar limpezas profissionais com seu dentista esperando um ‘fim’ da pandemia. Você não deixaria de realizar um exame de sangue necessário para o fazer somente depois de COVID certo? O que precisa ser feito, deve ser feito. Eu sei que tem sido difícil com o home office e com o aumento de consumo de bebidas alcoólicas, mas “escovar os dentes” nunca esteve tão em moda.

Um outro sintoma bastante observado do estresse excessivo é o bruxismo, ou o “ranger” e “apertar” os dentes, de forma diurna ou noturna. Isso tem resultado em um índice recorde de fraturas dentais ocorridas pelo travamento da mandíbula cerrando os dentes com bastante força (como as brigas de criança quando nos sentíamos em perigo ou com raiva)(Chen 2020). Imagine a força com a qual conseguimos morder o que pode causar? Morda o seu dedo e tem uma breve ideia. Um ser humano pode chegar a cerca de 500 a 600 Newtons de força (Lyons et al. 1996), algo como 60 kg/força, ou simplificando, uma mordida de 60 quilos (uma pessoa adulta magra por exemplo). Dentes tem sido fraturados literalmente ao meio, somente pela força da mordida causada pelo estresse e ansiedade. Por exemplo: se você está tendo contato de dente com dente enquanto lê este artigo, já está apertando os dentes, e não deveria. Minha recomendação? Faça algum protetor bucal (Preferimos que você quebre uma moldeira do que quebre o dente), e consulte seu profissional para tentar relacionar com alguma causa adicional fora o estresse (como contatos oclusais inadequados, posicionamento dental).

Finalizo desejando o fim de todo sofrimento que a pandemia tem causado a todos, e reforço que não deixe sua saúde bucal para um segundo plano, pois o impacto disso já tem sido sentido com certo remorso por alguns pacientes.