Não é raro ouvir-se o clamor de determinadas comunidades quando se dão conta de que serão gastos recursos vultosos na recuperação de determinada microbacia hidrográfica, por exemplo.

Haverá sempre alguém para lembrar que com esse dinheiro daria para construir não se sabe quantas casas e escolas, daria para equipar melhor tantos hospitais e assim por diante, sem falar no número de cestas básicas que seria possível destinar aos pobres.

 

Esse é, invariavelmente, o raciocínio da comunidade instalada na microbacia, na qual se intervirá com vistas à recuperação e ao manejo auto-sustentável. A noção que se tem é que o mal ou o bem da referida microbacia encerra-se aí mesmo, nos seus limites. Pouco se dá conta do efeito cascata ou dominó, como se queira. Semana passada um jornal paranaense estampou uma cena inimaginável para o Paraná dos dias de hoje, uma vossoroca levando de roldão casas inteiras, tal qual se verificou nos anos 70 na região do arenito de Caiuá, no Norte Novíssimo.

 

O quadro desolador da cena mencionada é decorrência, com certeza, do mal manejo que se deu nas microbacias a montante. É como dizia o ilustre especialista colombiano Lester Gutierrez: “manejo de cuencas es como una pareja de enamorados, o que se pasa arriba resulta abajo”. Assim o que se vê em determinadas circunstâncias não é a causa mas sim o efeito. É natural que aos menos informados pareça lógico que o montante gasto nos projetos ambientais seja superior ao valor das próprias terras e que, portanto, o caldo ficaria mais caro que o peixe.

 

Dois pontos há a considerar nesta questão, custos por que e para quê. Seria de se lembrar a comunidade dessa microbacia que os custos são para a reposição das proteções dos cursos d´água, dos arroios, das nascentes, são para evitar que o solo não chegue ao ponto da desertificação, são para evitar que parcelas de solo, agrotóxicos e agroquímicos de toda espécie continuem entupindo os riachos, fazendo com que na seca falte água e nas chuvas ocorram enchentes, e assim por diante.

 

O por que desses custos decorre dos próprios habitantes dessa microbacia referencia, de gerações e gerações que nunca se deram ao cuidado de respeitar minimamente os recursos naturais. Derrubaram a floresta, tocaram fogo nela, mataram e ou espantaram os animais, envenenaram as águas, secaram as nascentes, etc. Assim, o custo dos projetos nada mais representam que o custo dos estragos daqueles que exploraram e ainda exploram as terras.

 

É importante, pois, que os custos de projetos ambientais sejam vistos, em primeiro lugar, sob os seguintes ângulos, o por que do projeto, para que o projeto, quem deveria pagar a conta e, finalmente, quem está pagando o pato.

 Joaquim Severino – Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná e Diretor – Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A.