*por Claudia Queiroz

Se você sofre com a falta de tempo, confira suas conexões longe das telas. Ninguém mais tem tempo para uma boa conversa, uma xícara de chá, ouvindo e contando boas histórias, fazendo download da alma… A síndrome é geral. Uns afirmam fenômeno de que os minutos estão acelerados, outros simplesmente sentem que não há mais condições de dar conta de todos os afazeres em 24h. Fato é que estamos viciados em ansiolíticos, carentes de dopamina, cada vez mais deprimidos, superficiais nas relações e respondendo automaticamente que “estamos na correria”. E por que?

Desde que o relógio foi inventado e o mundo ficou sincronizado, uma espécie de “chip” do coelho da Alice no País das Maravilhas foi implantado no nosso DNA e prezamos mais pela velocidade do que pela qualidade do que fazemos.

Nada contra o relógio, mas antes dele existia maior respeito e conexão com a natureza, com o nascer e pôr do sol, com o sagrado almoço de domingo em família…. De uma hora para outra, viramos robôs numa vida comandada pelos filhos desta tecnologia (computadores e dispositivos móveis), respondendo alertas, alarmes e até lembretes de “beber água”, ou “hora de dormir” baixados no celular. Eu não sinto mais sede nem sono porque já esqueci o que é sentir!

Esqueci de mim

Com a consciência de lado, distraímos as sensações fazendo plantão nas redes sociais. Deixamos a família para curtir, comentar e postar. E desde que seja rápido, divertido ou aparentemente inédito, qualquer “parecer” ganhou o espaço do “ser” e é aí que “a vaca vai pro brejo”, como diria a minha avó.

Sempre que falta conexão entre as pessoas, laços são desfeitos ou se afrouxam. Basta ir a um restaurante e perceber na composição das mesas o tempo em que aquele encontro investe em conversa sem celular… Mesmo em nossas casas…

Eu insisto em implorar quase que diariamente para ninguém usar o aparelho nos 20min do horário de refeição juntos, mas… É comum me sentir menos importante que uma mensagem enviada por engano ao meu marido ou uma ligação de robô de telemarketing para ele na hora do almoço. Ele atende, responde até o engano, e justifica que vive em estado de alerta porque é obstetra e que não pode esperar. Mas com partos geralmente programados, manter o celular junto aos talheres serve apenas às notificações ativas das redes sociais…

Imaturidade

De aparelho ultra útil a vilão que afasta pessoas, não estamos preparados para usar a tecnologia. Gastamos o tempo que falta no dia a dia para fazer e manter vínculos por não saber limitar o uso de aplicativos que roubam toda nossa atenção.

Não é pra menos. O que havia nos séculos passados de mentes brilhantes prevendo o futuro (agora), imaginando tempo de sobra para lazer, família e qualidade de vida (já que as máquinas produziriam no lugar das pessoas), hoje esses gênios emprestam a inteligência para desenvolver aplicativos hipnotizantes, que despertam o consumo desenfreado e inconsciente em aplicativos de entretenimento digital.

Ninguém mais sabe viver. Jantar romântico, clic, instagram. Viagem bacana, clic, facebook. Mundo, veja como sou incrível. E o endosso deste microssegundo fica nas curtidas dos desconhecidos, que roubam o tempo do que seria um momento especial a cada plim que o alerta do dispositivo mostra e, …, pausamos a vida para conferir.

O virtual ficou mais interessante que o real. O reflexo da imagem, que pode ser editada, é bem mais atraente que o espelho. Preferimos o que parecemos e não mais quem somos.

Na prática, vemos jovens fazendo botox aos 20, colocando prótese de silicone nas mamas aos 18, ácido hialurônico nos lábios aos 25, mulheres de 30 agendando cirurgias de lipoescultura no inverno, as de 40 retocando geral pra amenizar os impactos do início da maturidade durante as férias… Enquanto se comparam às outras nas redes sociais…

Até quando?

Pior ainda é que existe uma geração de crianças e jovens crescendo sem orientação, condução e auxílio dos pais. Copiando a compulsão pelas telas. Aliás, criança com celular ou IPAD na mão não faz barulho, não chora, não incomoda…, não se comporta como criança! Abrevia a inocência e desenvolve (silenciosamente) problemas de saúde (depressão, ansiedade, baixa autoestima, amor próprio reduzido, confusão emocional, falta de conexão com os pais, pensamentos suicidas – estudos recentes apontam crescimento de 70% nos índices de suicídio infantil de 8 a 12 anos -, tudo isso por culpa nossa, que não limitamos o uso de tecnologia deles nem damos exemplo.

Eu acredito na presença carinhosa e atenta como detalhe essencial dos laços afetivos que queremos manter com quem amamos. Com relação à minha filha, especialmente, porque a formação da mentalidade dela é minha responsabilidade, fico orgulhosa com o ser humano maravilhoso que está se tornando – reflexo da educação que consigo proporcionar a ela.

Honestidade emocional

Empatia e reciprocidade são trocas de amor que só existem na conexão. Ontem mesmo eu não estava num bom dia. Ela me perguntou se eu estava feliz, respondi que não. Percebi, em cada segundo subsequente, a intenção de me fazer sentir amada, querida e especial pra ela, devolvendo pra mim parte do copinho cheio de carinho transbordando do coração dela…

Foi então que me inspirei para dividir uma receita especial que ponho em prática na nossa vida. Não passo de 3h por dia usando aplicativos de celular ou em frente às telas do computador. Toda vez que qualquer um dentro de casa me chama, respondo imediatamente, de corpo e alma, ao vivo e a cores.

Meu celular está geralmente sem volume e de vez em quando olho para responder ou retornar. Se está funcionando? Acredito que sim. Me organizo para usar a tecnologia (a meu favor) nos horários que planejo desempenhar melhor a performance e isso garante presentes ainda mais luminosos com as versões melhoradas que estou deixando para o mundo: eu e a filhotinha.

Brinco com minha filha de pintar e criar tudo o que imaginamos. Nossas conversas conduzem à consciência da educação que escolhi dar a ela e esses vínculos são a base real do maior legado que posso deixar: meu presente, o aqui e agora. Porque luto, com todas as minhas forças, para que nossa conexão vibre sem ajuda de aparelhos.

Claudia Queiroz é jornalista.