Em 22 lojas Renner selecionadas, desde junho, e já aguardando a “safra” de primavera-verão 2023, os primeiros calçados brasileiros feitos com resíduos de uva em sua composição ganharam atenção especial no Inspiramais, único salão latino-americano de design, inovação e sustentabilidade de matérias-primas realizado nesta semana em Porto Alegre.

Palestrante no evento, Sara Luiza Scheffel, gerente de Estilo da rede de 640 lojas, garantiu que o primeiro produto de moda confeccionado com matéria-prima feita a partir de rejeitos de sucos de uva não é modismo. Tanto assim que a pesquisa envolveu também a durabilidade dos calçados, capaz de serem usados por dez anos. Segundo ela, não teria sentido fabricar um produto menos impactante ao meio ambiente que fosse efêmero.

Sara Luiza

Foram desenvolvidos quatro modelos de calçados femininos – duas botas, um sapato Oxford e um tênis, atemporais, com valores a partir de 199 reais. A coleção cápsula está disponível no e-commerce da Renner e nas lojas selecionadas. (Uma pena que justamente a loja-vitrine do aeroporto de Porto Alegre não tenha sido contemplada).

O projeto nasceu da preocupação ambiental, um dos pilares da empresa gaúcha manifestada no Selo Re-Moda Responsável. E, como o Rio Grande do Sul tem orgulho de suas videiras, o foco da pesquisa foram as sementes e cascas de uva não aproveitadas pela indústria do suco. Processados, secados a 90 graus e prensados, os resíduos viram farinha, que vira ingrediente de um novo tecido. Sara Luiza observa que por enquanto apenas 35% dessa farinha entram na composição. A ideia é aumentar, conforme as pesquisas avançam ainda que os custos cresçam.

Sucesso de inverno, a coleção agora será acrescida de sandálias que devem chegar às lojas a partir de agosto. “Nosso objetivo é reduzir o preço, por enquanto seu valor equivale ao do couro. E ainda ter opção para o vestuário”, adianta Sara Luiza, observando que, contudo, as uvas são homenageadas nos cachinhos bordados nas românticas batas.

Inspiramais comemora volume de exportações 

O interesse de importadores gerou 1,7 milhão de dólares em negócios durante dois dias do Inspiramais, encerrado nessa quarta-feira em Porto Alegre. O Projeto Comprador, da ApexBrasil, estima ainda mais doze milhões de dólares para os próximos doze meses. “Mais do que dobramos o valor gerado com as vendas em relação ao evento de janeiro”, comemora o gestor de Mercado Internacional da Assintecal, Luis Ribas Júnior.

O salão, com edições em janeiro e julho, é promovido pela Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos-Assintecal. E os compradores são atraídos pelos mais de mil materiais e insumos em lançamento para as indústrias calçadista, moveleira e têxtil. Os cem estandes receberam cerca de cinco mil visitantes qualificados para fazer negócios nacionais e internacionais.

A Endutex, multinacional portuguesa de tecidos tecnológicos com duas unidades na Serra Gaúcha, ficou satisfeita. Ao final, Glória Santos, gerente comercial da empresa, disse que o evento extrapolou as expectativas. Juan Carlos Ruiz, comprador do grupo mexicano Sacuri, gostou do que viu: “Focamos muito em materiais reciclados e encontramos uma ótima variedade”. Assim, alinhavou negócios da ordem de 100 mil dólares.

Silvana Dilly, superintendente da Assintecal, observa que Ruiz perfila-se entre os visitantes focados em negócios. E cada vez mais “em busca de informações e materiais que trazem inovação e sustentabilidade – uma unanimidade entre expositores e clientes”.

Outra frente de negócios é o programa Brazilian Footwear, da Abicalçados, que levou 16 marcas na Missão Comercial Colômbia, e acaba de retornar anunciando mais de 1,7 milhão de negócios. E há também outro esforço de mercado: as rodadas digitais com compradores da Eurásia. Luiz Ribas Júnior diz que os países da região têm interesse nos produtos químicos e componentes para a indústria de couro e calçado. A Assintecal até contratou consultoria para prospectar distribuidores e compradores. As rodadas acontecerão em outubro e novembro deste ano.