Quando não formos capazes de mudar uma situação, devemos mudar a nós mesmos

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David Forli Inocente*

Em tempos difíceis e incertos como o que estamos vivendo, num período desafiador para todos, com perdas de muitas naturezas, o legado do psicanalista Viktor Frankl deve ser relembrado para nos fazer refletir sobre como estamos nos comportando durante essa pandemia. Psiquiatra austríaco, conhecido como o pai da logoterapia – que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência, Frankl foi muito importante na construção de inúmeras bases da psicologia moderna. Ele já era psiquiatra quando foi capturado na Segunda Guerra Mundial, ficou três anos confinado, passou por quatro campos de concentração e viu sua família – mãe, pai, irmãos e esposa – ser morta durante a guerra.

Sua obra máxima é “Em busca de sentido”, escrita para descrever sua própria experiência. Quando Frankl foi levado para o campo de concentração, ele já se interessava por esse tema do sentido da vida e da maneira como esse sentido poderia impactar no crescimento das pessoas e sua maneira de viver. Esse livro traz uma mensagem muito importante, poderosa: ali, Frankl afirma que sobrevive ao campo de concentração não aquele que é mais forte, nem aquele que tem as melhores condições de saúde, mas aquele que tem um motivo para lutar. O profissional destaca que não é o frio que mata, nem a fome, nem a doença, mas sim não ter um sentido, uma razão pela qual lutar, uma visão de um futuro em que se queira viver.

A pergunta que fica para todos que lêem a obra de Frankl é: como foi possível para este homem – depois de perder toda a sua família, vendo todos os seus valores serem destruídos, sofrendo com a fome, o frio, a violência, e sabendo que poderia ser o próximo a morrer – conseguiu encontrar um sentido na vida que o permitisse enxergar que valia a pena continuar vivendo? Mesmo tendo vivido as piores experiências e passado por episódios inimagináveis, Frankl defende que o espírito do homem pode se elevar acima das piores circunstâncias. Em um dos trechos do livro, ele diz: “O que faz necessário aqui é uma reviravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos ensinar às pessoas em desespero que, a rigor, nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim, exclusivamente, o que vida espera de nós”. Ou seja, quando não formos capazes de mudar uma situação, devemos mudar a nós mesmos. 

Aos seus pacientes, Frankl insistia sempre com a pergunta: qual é a razão da sua existência que pode fazer esse problema que você enfrenta se tornar menor para você? E o que isso tudo nos ensina nesse momento de pandemia? Estamos todos aprisionados,  vivendo um momento muito difícil, que nos paralisa. Pensar na obra e vida de Viktor Frankl nos leva a refletir: o que queremos para nossas vidas e como queremos estar quando essa pandemia acabar? Como estamos usando nosso tempo nesse período? É um momento para nos conectarmos com amigos, colegas, familiares distantes. Um momento para reconstruirmos as bases das nossas necessidades humanas mais profundas, para nos prepararmos, estudando, fazendo cursos e nos aprofundando em temas que nos interessem. Essa pandemia vai acabar e quando ela passar, o ideal é que tenhamos usado esse tempo, não apenas para sobreviver, mas também para sermos melhores do que éramos antes.

 * David Forli Inocente é diretor geral de Pós-Graduação e Educação Continuada da Universidade Positivo.