Por que não te calas?

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Pois, pois, o dia 10 de novembro será lembrado como aquele em que o presidente Jair Bolsonaro perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado ou de controlar os dedos nervosos produtores de textos, nas redes sociais, que fazem mal principalmente a ele mesmo.

Na mensagem, “deplorável” até pelos mais próximos e fiéis auxiliares, Bolsonaro comemora o que imaginava ter sido o “fracasso” da vacina chinesa, uma das esperanças contra a covid-19. O presidente pareceu mesquinho e sobretudo cruel.

O pior é que o dia 10 acabou sem que Bolsonaro tenha se desculpado pelo erro grotesco de avaliação dos fatos que inspiraram seu comentário. No post, Bolsonaro pretendeu enumerar supostos males causados pela vacina (“morte, incapacidade” etc) e ainda se jactou de seu “acerto”.

Se se informasse, o presidente criticaria o governo paulista por esconder o óbito, talvez por razões eleitorais. Preferiu a barbárie do vale-tudo.

Beócios estáveis

Ministros com gabinete no Planalto atribuem a “assessores da área de comunicação” ou ao filho Carlos, o post de Bolsonaro comemorando o suposto “fracasso” da vacina chinesa. Esperou-se o dia todo, em vão, que o presidente os desautorizasse. E até demitisse alguns beócios.

Odor eleitoral

No Ministério da Saúde, a certeza é que o governo de São Paulo temia prejuízos à campanha de Bruno Covas, caso cumprisse o dever, como Oxford, de suspender os testes antes mesmo de a Anvisa ser informada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, comemorou os R$21,5 milhões liberados “pelo governo federal” para ajudar seu estado, o Amapá, a enfrentar o apagão. Não mencionou Jair Bolsonaro, claro.

Caso desleixo

A imagem das pesquisas piorou com a impugnação do Datafolha sobre a eleição em São Paulo. Impressiona a fundamentação do juiz. Inclui até a falta de assinatura do estatístico responsável pela pesquisa. Presidente do TSE, o ministro Luís Roberto Barroso disse que empresas devem apresentar um novo modelo de eleição digital, usando o celular. Segundo ele, a urna eletrônica é confiável, mas custa muito caro e “a cada dois anos temos que substituir 500 mil e isso custa R$700 milhões”.

Ex-partido grande

Arthur do Val, o Mamãe Falei do Youtube, começou a campanha para prefeito de São Paulo com apenas 1% nas pesquisas, e agora já tem 5%. Empatou tecnicamente com o petista Jilmar Tatto. Na coletiva em que lançou o projeto de privatização do Porto de Itajaí (SC), o ministro Tarcísio Freitas (Infraestrutura) disse que não tem dúvidas que essa desestatização “será um projeto bem-sucedido”.

Hora de conversar

Luciano Huck diz que é hora de conversar. É o que tem feito nas últimas semanas: conversou com Sérgio Moro, Rodrigo Maia, Flávio Dino e Eduardo Leite. Almoçando no Rio com Rodrigo Maia, o presidente da Câmara disse que “minha turma é essa aqui”. Moro também falou com Luis Henrique Mandetta, João Doria, João Amoedo (ex-presidente do Partido Novo) e incluiu em sua lista o vice Hamilton Mourão, que lhe disse “Eu sou vice de Bolsonaro só basta isso”.

Roupa suja

O ministro Fábio Faria não gostou do ex-juiz ter acrescentado em sua lista o nome de Mourão. Ciro Gomes falou que “lavou a roupa suja com Lula” e participou de um comício com Márcio França. Estão todos procurando um Joe Biden à brasileira.

Bloco

Colocar todos esses nomes num bloco de centro e escolher um para ser o protagonista da eleição de 2022, como Bernie Sanders e Elisabeth Warren fizeram com Joe Biden, é uma missão quase impossível. Todos acham que poderiam ser o escolhido e esperam que outros o apoiem como Sanders e Warren fizeram. Contudo, ser protagonista de um líder populista de direita num cenário bipartidário como o americano é bem diferente de exercer o mesmo papel no pluripartidarismo brasileiro. É mesmo tudo conversa. Huck apoiaria Moro ou Doria? Doria faria o mesmo com Moro e Huck? E Moro, que dá os primeiros sinais de que poderá ser candidato.

Sem inquietação

Se politicamente o processo é negativo para Bolsonaro na economia, dado até o protecionismo de Trump, a mudança do governo dos Estados Unidos não trará maiores prejuízos ao Brasil – nem inquietação no mercado. Os acordos assinados por Trump eram muito preliminares e as concessões dos republicanos, a despeito da “relação especial” com Bolsonaro, são poucas.

Recusa

A recusa brasileira em reconhecer a vitória de Joe Biden e a aparição de Hamilton Mourão dizendo que isso será feito na hora certa, levou o embaixador norte-americano no Brasil, Todd Chapman, a sinalizar ao chanceler Ernesto Araújo o desconforto do futuro presidente dos Estados Unidos. Por ironia, a falta de sensibilidade do Itamaraty acaba aproximando o Brasil da China e da Rússia, sem que isso seja um projeto bolsonarista. Bolsonaro, certamente, vai angariar uma antipatia maior no governo Biden.

Ironia

Paulo Guedes está promovendo na marra a estatização do sistema bancário. Dizem que, quando ele deixar o governo, vai abrir sua própria fintech. Seria uma “Operação Arrasa Bancos” para depois entrar no mercado, numa boa.

Aposta

Há quem aposte que Bolsonaro cogita transferir a gestão do Bolsa Família do Ministério da Cidadania para a Pasta da Família. Seria uma forma desconfortável de demitir Onyx Lorenzoni com ele ainda no cargo.

Sem informação

O PIX começa a funcionar na próxima segunda-feira e só 15% das pessoas sabem como ele funciona, segundo pesquisa encomendada pela PayPal. Mas 61% dos entrevistados não gostam de pagar taxas de DOC e TED.

Perdeu a conta

Sem dizer qual e onde, o ex-presidiário Lula anda reclamando do habeas corpus “há dois anos sem julgamento”. Está confuso com as dezenas de recursos já negados em todas as instâncias da Justiça.

Vem tentando

O presidente da Associação Nacional dos Desembargadores, Marcelo Buhatem, do TJ-RJ, estaria tentando se cacifar junto a Jair Bolsonaro para uma futura vaga em algum tribunal superior. Nos últimos dois meses, Buhatem tem se aproximado aos poucos do Chefe do Governo. Pessoas próximas a Bolsonaro acham que ele tem de fazer algum agrado ao Judiciário do Rio porque precisa de um afago. E lá que correm as investigações contra Flávio.

Chance

O deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO) perguntou nas redes sociais o que os seguidores acham da possível chapa Moro-Huck para 2022. E antes que digam que ele mudou de lado, esclarece que “a pergunta apenas é mais uma chance para mostrar que ninguém está contra os dois”.

Pelo Twitter

Um levantamento feito pelo Twitter mostra que 75% dos brasileiros utilizam a plataforma para se atualizarem e ficarem por dentro das notícias relacionadas às eleições; 15% que não utilizam a rede social para estes assuntos e 10% que utilizam pouco. Mais: 69% dos entrevistados disseram que usam a plataforma para acompanhar tudo em tempo real, 62% para atualizar dados, 54% para dar visibilidade aos pontos de vista e 37% para acompanhar somente seus candidatos.

Jornais e revistas

Ainda sobre o levantamento feito pelo Twitter:  mostra que dos que utilizam a rede social para se atualizar sobre as eleições, 54% buscam informações, principalmente nas páginas de jornais e revistas, 48% em páginas de jornalistas ou especialistas no tema e 22% somente pelas páginas dos candidatos.

Cantando vitória

O presidente Jair Bolsonaro começa a passar dos limites com esta “guerra de vacinas”. Após ser anunciada a paralisação dos testes da vacina chinesa por ligação de um “suposto” óbito ao uso da vacina, foi ao Twitter para dizer que estava certo sobre a vacina e postou em resposta a um usuário: “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. Dimas Covas, diretor-geral do Instituto Butantan que é parceiro do laboratório chinês afirmou que o óbito que o presidente relacionou a vacina, não tem nada de comprovação com o uso do imunizante.

Ataque

Diante do post de Jair Bolsonaro sobre a “suposta” vitória contra a Coronavac, vacina chinesa contra covid-19 que está sendo fabricada e testada em parceria com Instituto Butantan, Jair Bolsonaro abriu mais uma brecha para os ataques dos adversários. O mais cruel foi de Ciro Gomes que disse: “Cadeia é muito pouco para canalhas que fazem politicagem com vacina, a única saída para pôr um ponto final na maior crise de saúde pública e socioeconômica da história”.

Números

Para quem gosta de números: no acumulado em doze meses até dezembro de 2018, o déficit fiscal nominal alcançou R$ 487,5 bilhões (7% do PIB). No acumulado em doze meses até setembro de 2020 o déficit alcançou R$ 991 bilhões (13,74% do PIB). E aumento real em relação ao PIB de 83,36% comparativamente ao acumulado em dozes meses até dezembro de 2018.

Frases

“Na briga entre Bolsonaro e Dória, perdem os dois e todos nós. A covid agradece.”

Claudio Humberto