fotonarrativa

Com o objetivo de comentar a exposição Periscópio Urbano, de Daniel Castellano, a qual está sendo viabilizada através de orçamento colaborativo, faço uma rápida busca na internet. Digito: “fotos feitas do alto”. Como eu já esperava, predominância do Grande Plano Geral. Na maioria imagens feitas de helicópteros e de drones.

Quando alguém sobe ao topo de uma montanha ou de um prédio para fotografar, quase sempre prefere ou “aproveita” para enquadrar a maior extensão possível. É natural. Na superfície temos a visão fragmentada, quando no alto vemos mais e queremos captar esse todo.

Isso ajuda a pensar sobre essa seleção de vinte fotos que Castellano e a curadora Tânia Buchmann fizeram.  O diferente dessa série está na prioridade aos planos mais fechados e em composições que (re)fragmentam  o olhar, para que o observador perceba a beleza e o interessante na relação entre os objetos vistos de cima, seja entre um toldo e uma escada ou entre uma faixa de sinalização e um guarda-chuva etc.

Ainda especulando sobre o modo, não exatamente que fotografamos, mas que enxergamos do alto: primeiro salta aos olhos o geral, olhamos para baixo e sentimos a diferença ainda numa percepção aberta, grande angular. Quase sempre algo nos chama a atenção e automaticamente nos concentramos, “fechamos” num movimento, objeto ou algo unitário, para depois perceber a relação entre grupos de objetos. Como foi dito, mera especulação. Mas, arrisco dizer que é raro ou incomum que as pessoas notem e se concentrem em planos médios, como nas fotos que compõem esta exposição.

É o que quase sempre se espera de um trabalho de fotografia: um olhar diferente. E Periscópio Urbano deverá atender a essa expectativa com fotos que chamam a atenção principalmente pela simetria. No dizer de Daniel Castellano no texto de divulgação do projeto, “enxergar de cima nos permite descobrir ângulos, perceber composições que impressionam pela simetria e pela grafia formada pelos mosaicos de Petit pavet, nas manhãs de neblina ou na penumbra da noite, no sol ou na chuva”…

Para ver mais sobre conceitos relacionáveis com o da exposição Periscópio Urbano, vale buscar o riquíssimo trabalho do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, que ficou conhecido como um especialista em fotos aéreas. Bertrand publicou algumas dezenas de livros com fotos feitas de helicópteros e balões e ao mesmo tempo que encantou seus leitores com grandes planos de lugares exuberantes e remotos, também fez registros magníficos em planos médios, seja de conjuntos arquitetônicos, bairros, grupos de pessoas e muito mais.

Uma coincidência evidente entre o trabalho de Bertrand e o de Daniel Castellano é o aproveitamento das sombras. Uma das fotos de Daniel, de um ciclista e a projeção de sua sombra, é uma das melhores da série. Mas não separei essa. Fiquei com esta do Guarda-chuva. Numa cidade como Curitiba, nada mais comum que o guarda-chuva. Mesmo que sejam vários deles coloridos, não chegam a chamar a atenção na maioria das vezes. Mas para tudo existe um novo olhar, um periscópio pode mudar tudo.

A exposição estará na Biblioteca Pública do Paraná, logo que seja viabilizada. Pode-se contribuir através do Benfeitoria.com, uma das principais marcas de orçamento colaborativo no Brasil.

Guilherme Artigas é jornalista e repórter fotográfico – www.guilhermeartigas.com