Pequenas empresas estão na UTI

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Pesquisa do Sebrae e da FGV divulgada em julho mostra que apenas 18% dos pequenos empreendedores que buscaram empréstimo tiveram o pedido aprovado

Felipe Avelar*

Sozinho, o novo coronavírus está causando enormes danos à economia de todos os países do mundo, sem exceção. Quando a pandemia é associada a impasses políticos, como ocorre no Brasil, a crise econômica se torna ainda mais aguda e preocupante, e nesse contexto as micro e pequenas empresas estão entre as maiores vítimas.

É desastroso negar o risco e as consequências da covid-19 no médio e no longo prazo. Em pouco mais de cinco meses os Estados Unidos, a nação mais rica e poderosa do mundo, superaram 163 mil mortes por covid-19, quase três vezes mais do que as 58 mil baixas norte-americanas sofridas durante duas décadas de Guerra do Vietnã. Esse único dado mostra o que ainda pode acontecer no Brasil, cujos recursos são infinitamente menores do que os dos norte-americanos.

Aqui, no começo de agosto o número de casos confirmados já superava 3 milhões, com mais de 100 mil óbitos, o que torna o país um dos epicentros da pandemia. No primeiro trimestre do ano, o PIB brasileiro registrou queda de 1,5%, na comparação com igual período de 2019. O levantamento mensal da Serasa Experian mostrou que em abril o número de pedidos de recuperação judicial registrou alta de 46,3% em relação a março, enquanto os pedidos de falência cresceram 25% no período.

Enquanto isso, não há consenso e nem uma política oficial que centralize os recursos e os meios de combate ao vírus, para a proteção efetiva da população. Estados e municípios agem por conta própria e o governo federal se concentra em defender seus pontos de vista com argumentos políticos e econômicos, sem base científica, na tentativa de desestimular o isolamento social.

Nesse cenário, sofre mais quem pode menos – ou seja, os pequenos empreendedores, que não dispõem de crédito facilitado para capital de giro e nem capital próprio para suportar um longo período de faturamento reduzido. Nesse grupo de risco encontram-se nada menos do que 12 milhões de empresas, dos quais 8,3 milhões são microempreendedores individuais (MEI). De acordo com uma pesquisa feita pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas divulgada em julho, apenas 18% das micro e pequenas empresas brasileiras que buscaram empréstimo durante a pandemia tiveram o pedido aprovado.

O governo federal anunciou algumas iniciativas de apoio às empresas, com destaque para a Medida Provisória nº 972, de 26 de maio, que liberou R$ 15,9 bilhões para o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). Nesse programa, as instituições financeiras concedem empréstimos às MPEs com recursos próprios e o governo avaliza até 85% da dívida.

O problema é que a metodologia utilizada para liberar os empréstimos se baseia exclusivamente na análise ortodoxa de crédito, ou seja, apenas com demonstrações contábeis, histórico das empresas e sócios, bem como de lastro de outras garantias. Isso é um grande erro, pois estamos falando de MPEs, negócios comandados por guerreiros empreendedores, que travam uma grande batalha para perpetuar seus sonhos. Outro grande erro é usar apenas os canais convencionais de distribuição de crédito do país. Infelizmente, concentramos quase a totalidade de operações financeiras em poucos bancos. Se não utilizarmos as vias alternativas da atividade de fomento mercantil, sociedades de crédito e das fintechs, é provável que o dinheiro não chegue a quem mais precisa.

A ajuda do governo, ou podemos dizer recursos financeiros do próprio contribuinte, além de ineficaz é insuficiente, principalmente quando comparada com os programas desenvolvidos em outros países. A União Europeia, por exemplo, lançou um pacote de medidas de combate à covid-19 e de apoio às empresas e aos empregos no valor de 540 bilhões de euros, mais de 3,2 trilhões de reais. Pesquisadores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, informam que até junho o Japão havia aplicado o equivalente a 21% do PIB anual no enfrentamento da pandemia, e em Luxemburgo e na Bélgica a proporção é de 20% e 19% do PIB, respectivamente. Na França, o governo havia gastado 450 bilhões de euros e anunciou que estenderá até julho o pagamento de 70% do salário bruto de funcionários de empresas privadas que não estão trabalhando, para evitar demissões.

Na América Latina, o Peru é o país que lidera a lista de maiores gastos fiscais para combater a pandemia, com dispêndio de 12% do PIB, e só depois aparece o Brasil, com 10%. Em julho, o Ministério da Saúde brasileiro havia utilizado menos de 30% dos recursos destinados à contenção do coronavírus.

Em um momento tão crítico como este que estamos vivendo, precisamos pensar como empresários e também como cidadãos e buscar fortalecer os elos mais fracos da cadeia econômica e social. Nesse cenário, é preciso apoiar de forma mais prática e efetiva as micro e pequenas empresas brasileiras, um segmento indispensável para a criação de renda e trabalho. Por enquanto, com o país assistindo atônito à sequência de crises políticas, as empresas de pequeno porte estão na UTI, e faltam respiradores.

Felipe Avelar é CEO da Finplace (www.finplace.com.br), fintech que conecta de forma gratuita empresas que precisam de crédito com instituições financeiras. Foi por 10 anos vice-presidente de operações do Grupo Credit Brasil e possui grande experiência no segmento de crédito para MPMEs