Para especialistas o cenário realista  ainda requer muita atenção

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Fernanda Consorte: “Ainda temos um caminho longo, que será difícil e mais coisas nos aguardam”

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) não poupou as finanças de praticamente nenhum país. No Brasil, as despesas extras do governo com ajuda emergencial à população e às empresas impactam, diretamente, em riscos fiscais. O cenário interno, que já tinha um problema fiscal acentuado a ser resolvido, com a crise da sanitária, ainda poderá sofrer pressão nos índices de inflação. “O cenário realista ainda é de atenção”, destacaram especialistas do Banco Ourinvest, na terça-feira (27), durante coletiva aos jornalistas. A coluna CAPITAL & NEGÓCIO, do jornal Diário Indústria & Comércio, por intermédio do jornalista Luiz Augusto Juk participou do encontro com a imprensa.

Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, acredita que o pior já passou: “Mas precisamos ser realistas. No início deste ano, começamos a ver políticas de isolamento em vários países e, quando (a pandemia) chegou por aqui, entramos em uma crise imediata, com choque de demanda, gerando problemas de inflação. Ainda temos um caminho longo, que será difícil e mais coisas nos aguardam”, ponderou.

Segundo ela, ainda há um cenário de confronto entre EUA e China. “A gente considera o cenário base com a vacina – até como ponto de partida. A nossa perspectiva é que, no primeiro trimestre de 2021, ela apareça de forma eficaz e a pandemia comece a recuar e, com isto, a Europa volte a ter crescimento. Nesse cenário, a China ganha um protagonismo externo e, de certa forma, abre espaço para uma melhora de países emergentes como o Brasil”, pondera.

Considerando os desgastes atuais, Fernanda acha difícil ver o governo empenhado no compromisso fiscal. “Não falamos em abandono da agenda liberal, mas a queda de braço entre fiscalistas e populistas deve seguir por todo o atual mandato – dificultando o ingresso de capitais. Assim, a taxa de câmbio segue pressionada, embora em patamar menor do que o atual, ao redor de R$ 5”, enfatizou. Para ela, outro ponto que pode pesar na atração de investimento ao Brasil será o mercado de trabalho, que deve melhorar de forma lenta, em linha com uma recuperação econômica tímida e difusa entre setores, com PIB crescendo cerca de 2,5%.

“Cenário mais pessimista viria com a segunda onda de contágio”

Cristiane Quartarolli: “Uma melhora depende, diretamente, que a população começasse a ser vacinada este ano”

A economista do Banco Ourinvest, Cristiane Quartarolli,  analisou a perspectiva levando em conta um cenário otimista. “Uma melhora depende, diretamente, que a população começasse a ser vacinada este ano, com uma retomada da China, que seria benéfico para países emergentes, como o Brasil. Isso atrairia mais fluxo de capital para o País, o que colocaria nossa taxa de câmbio mais favorável – e com crescimento sustentável mais otimista – puxando o crescimento do PIB de 2021 para até 4%, mas com uma agenda do governo pró-reformas, com quadro fiscal mais ajustado. O fiscal seria importante para termos um cenário mais otimista”, acentuou.

Para ela, o cenário mais pessimista viria com uma segunda onda de contágio não somente na Europa, mas EUA e Brasil também. “As economias fechadas trariam impactos pessimistas e, óbvio, isso significaria queda de fluxo de investimento, depreciando ainda mais o câmbio no cenário interno. A única saída que o governo teria seria adotar medidas mais populistas, sem reformas, e a crise se aprofundaria. Dessa forma, teríamos uma recessão maior neste ano com crescimento de não mais de 1% em 2021. Neste cenário, haveria uma piora no quadro inflacionário e o BC teria que aumentar ainda mais os juros”, diz Cristiane.

“A taxa de câmbio pode variar entre R$ 4,2 a R$ 6,00”

Welber Barral: “no cenário otimista, a previsão é que haveria um aumento forte nas exportações de produtos manufaturados”

Para o ex-secretário nacional de Comércio Exterior, Welber Barral,  o cenário-base conta com uma dose de realismo. “Acreditamos que haverá uma continuidade nas exportações das commodities, porém com preços mais equilibrados. Já para as importações, devemos ter algum aumento, levando o superávit a US$ 45 bi”, ponderou.

Barral analisa que, no cenário otimista, a previsão é que haveria um aumento forte nas exportações de produtos manufaturados com expressiva recuperação nos mercados latino-americanos. “Adicionaria a isso um aumento na importação de insumos e equipamentos, levando o superávit a US$ 40 bi”, avaliou. Em um cenário mais pessimista, Barral acredita que haverá grande dependência de exportações das commodities aliada a um baixo crescimento do comércio internacional. “Isso traria dificuldade de retorno das exportações de manufaturados e, assim, o superávit seria de US$ 42 bi”, asseverou.

Os especialistas do Banco Ourinvest concordam que o quadro depende da vacina da Covid-19. “Esperamos, sim, uma vacina eficaz que alcançará parte relevante da população mundial no primeiro trimestre de 2021, trazendo a confiança. A mesma que fará com que o mundo volte ao normal e a economia tenha espaço para voltar a pulsar. Contudo, a forma e o rítmo de recuperação externa podem ser diferentes, assim como o sucesso ou não da vacina. Isso implica, em nossa visão, alguns possíveis cenários: no Brasil, as preocupações fiscais persistem, e o cenário evoluirá a depender das ações nesse tema; a taxa de câmbio pode variar entre R$ 4,2 a R$ 6,00 gerando diferentes cenários no comércio exterior”, enfatizaram os especialistas na entrevista coletiva.